21 Out 2021 | domtotal.com

Arqueologia ameaçada

Nova fábrica da Heineken em Pedro Leopoldo pode colocar em risco o meio ambiente e sítios arqueológicos

A gruta da Lapa Vermelha, onde foram encontrados importantes fósseis em Minas Gerais
A gruta da Lapa Vermelha, onde foram encontrados importantes fósseis em Minas Gerais (Alenice Baeta/UFMG)

Jorge Fernando dos Santos

Conciliar o desenvolvimento socioeconômico com a proteção ambiental tem sido um desafio cada vez mais presente no mundo contemporâneo. Desafio esse aparentemente ignorado pelo governo Romeu Zema, que celebrou em dezembro a construção de uma fábrica de cervejas Heineken no município de Pedro Leopoldo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Pelo modo como o projeto foi liberado, tudo indica que se levou em conta apenas o aspecto econômico. O investimento previsto é de R$ 1,8 bilhão, podendo gerar 350 empregos diretos. No entanto, especialistas alertam que a nova fábrica da Heineken pode colocar em risco o meio ambiente e sítios arqueológicos da região, motivo pelo qual o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) interditou a obra, em agosto.

O terreno escolhido (pasmem!) fica a menos de um quilômetro da Lapa Vermelha 1. Trata-se de uma das sete cavernas da região, tida como um dos principais santuários arqueológicos do planeta. Nela foi achada, na década de 1970, a ossada de Luzia, a mais antiga habitante das Américas e uma das poucas peças sobreviventes do incêndio que destruiu o Museu Nacional, em 2018.

No mesmo local, entre 1835 e 1845, o naturalista dinamarquês Peter Lund encontrou fósseis da megafauna americana, como a famosa preguiça gigante, datadas de 11 mil anos, idade aproximada de Luzia. Com a previsão de produzir 750 milhões de litros anuais de cerveja, a fábrica deverá consumir 360 mil litros de água por hora, todos os dias do ano. Isso poderá secar mananciais, afetando a bacia do córrego Samambaia e os sítios arqueológicos do maciço calcário, que fica às margens de uma lagoa.

Estudo insuficiente

A ICMBio considerou insuficiente para o licenciamento da obra o estudo feito por uma empresa finlandesa contratada pela holandesa Heineken. Estranhou-se a rapidez com que a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) liberou a construção da fábrica, sem consultar o Instituto Estadual de Florestas (IEF) nem o Instituto do

Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Este, por sua vez, cobrou explicações do governo estadual.

Enquanto uma parcela de moradores da região comemora as vagas de trabalho anunciadas, outra tem dúvidas sobre o licenciamento feito na Área de Proteção Ambiental (APA) Carste de Lagoa Santa devido ao impacto que a retirada da grande quantidade de água poderá causar. O volume previsto equivale ao consumo de 37 mil pessoas, o que representa aumento de 77% em relação ao que é captado atualmente. Com o rebaixamento do lençol freático, poderá faltar água em vários municípios e até na Serra do Cipó.

A arqueóloga Maria Jacqueline Rodet, residente em Pedro Leopoldo, afirma que a história da Arqueologia no país começa naquela região. Pesquisadora do Museu de História Natural da UFMG, ela declarou ao repórter Leandro Aguiar do UOL que, para liberar a obra corretamente, "seria preciso fazer um plano de manejo das centenas de sítios, detalhar a situação em que se encontram, mapear as cavernas e entender o seu funcionamento com e sem água". O trabalho levaria cerca de um ano para ser concluído.

Além de ser obrigada a paralisar a obra, a Heineken foi multada em R$ 83 mil. O Ministério Público de Minas Gerais instaurou inquérito para saber se houve ou não omissões na liberação concedida pelo Estado a toque de caixa. O MP Federal também está investigando o caso.

O que se vê, ao que parece, é uma queda de braço entre o poder econômico e a segurança ambiental, além de uma tremenda lambança do governo Romeu Zema. Caberia ao poder público dinamizar o desenvolvimento da região, mas sem se descuidar do meio-ambiente e do patrimônio arqueológico ameaçado. Uma fábrica de cervejas de tais proporções jamais poderia ser autorizada a funcionar naquela região.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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