24 Out 2021 | domtotal.com

Crise? A crise vem é agora


Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia Paulo Guedes
Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia Paulo Guedes (Clauber Cleber Caetano/PR)

Carlos Brickmann

O presidente Bolsonaro reafirmou sua confiança em Paulo Guedes e prometeu não fazer aventuras na economia. O presidente da Câmara, Arthur Lira, disse que o Congresso está comprometido com a solidez fiscal.

Mas Bolsonaro mandou Paulo Guedes se virar para que a Bolsa Família seja de R$ 400. Só não disse quais despesas devem ser cortadas para providenciar os recursos. Por exemplo, não faz muito tempo o presidente gastou, para inaugurar uma ponte, dez vezes o custo da ponte.

Arthur Lira preside a Câmara, onde uma comissão já aprovou o calote no pagamento de precatórios – dívidas que o Tesouro foi condenado a honrar imediatamente, mas pretende dividir em suaves prestações anuais.

Bolsonaro disse que não quer correr nenhum risco na economia. Mas seu Governo pressiona o Congresso para furar o teto de gastos, a "regra de ouro" que, no Governo Temer, quase zerou a inflação.

Arthur Lira apoiou a iniciativa do Congresso de destinar R$ 5,7 bilhões para que os candidatos gastem na campanha eleitoral. É quase o triplo dos já escandalosos gastos na campanha de 2020. Essa verba sozinha bastaria para pagar o Bolsa Família de R$ 400 a mais de 14 milhões de famílias.

Bolsonaro reiterou sua confiança total em Paulo Guedes e garantiu que ele fez um brilhante trabalho. Aqui Bolsonaro tem toda a razão. Em Guedes ele pode confiar: seus sapatos estarão sempre bem engraxados, brilhando.

A última palavra

Mas façamos justiça: em toda essa lambança, Paulo Guedes fez questão de ter as palavras definitivas. São "sim, senhor" e "pois não, Excelência".

Os fatos

Talkey, como diria o presidente no inglês que deve ter aprendido com seu filho 03, Eduardo Bolsonaro. Mas ele e Arthur Lira disseram essas coisas no dia em que a equipe do Ministério da Economia foi embora e em que Paulo Guedes não sabia direito nem o nome de um dos escolhidos para cargos importantes em sua equipe; em que uma comissão da Câmara deu parecer favorável a calotear a dívida dos precatórios; em que as empresas negociadas em Bolsa completaram a perda, em valor de mercado, de R$ 284 bilhões.

O nome das coisas

Por favor, não critiquem este colunista por chamar o Auxílio Brasil, ou Bolsa Brasil, de Bolsa Família. Muda o nome, é a mesma coisa. Mas talvez não seja: o objetivo é menos livrar essas famílias da fome e mais dar um gás à campanha de Bolsonaro à reeleição. Do jeito que a inflação está subindo, logo, logo este auxílio será consumido pela alta de preços.

Vem mais

Bolsonaro prometeu também conseguir uma ajuda de R$ 400 mensais para os caminhoneiros, que ameaçam entrar em greve no próximo dia 1º contra as contínuas altas do combustível. Talvez funcione; mas líderes de caminhoneiros já chamaram essa ajuda de "mel na chupeta" e se declaram dispostos a paralisar o país. Não se sabe onde o presidente buscará dinheiro para essa ajuda. Também não se sabe o que pode acontecer: donos de frotas de caminhões já pararam uma vez, e já prometeram parar outras, sem cumprir a promessa. Mas, seja greve (dos profissionais) ou locaute (dos patrões), é como jogar gasolina no fogo. Seria somar a inflação ao desabastecimento.

Boa notícia – a paz funciona

Israel e os Emirados Árabes Unidos, que celebraram a paz nos Acordos de Abrahão, planejam uma missão espacial conjunta, o lançamento de uma nave à Lua. O acordo foi assinado no dia 19 e pode ser ampliado para outras missões. O primeiro projeto é o lançamento da Beresheet (palavra hebraica que inicia o Gênesis: "no princípio"), segunda nave espacial da SpaceIL. A primeira chegou à Lua mas se espatifou no pouso. A segunda, com previsão de lançamento em 2024, seria uma nave-mãe, que lançaria um satélite lunar e colocaria duas sondas na superfície da Lua. Tanto satélite quanto sondas serão desenvolvidas em conjunto por estudantes dos Emirados e de Israel. Há aí uma iniciativa pioneira: ninguém ainda lançou duas sondas à Lua. Uma deve pousar no lado oculto da Lua, algo que até hoje só a China conseguiu.

O trabalho dos Emirados

Os Emirados Árabes Unidos já têm boa tecnologia espacial: em fevereiro, seu satélite Hope alcançou a órbita de Marte – algo atingido por apenas cinco países. E planejam pousar uma nave num asteroide entre Marte e Júpiter.

Mudança no futebol

O Tribunal Superior do Trabalho decidiu que os direitos de imagem do jogador Lincoln Cassio de Souza Soares, do Coritiba, eram salário, e que seu objetivo era apenas fraudar a legislação trabalhista. Ele recebia R$ 50 mil de salário e R$ 133 mil de direito de imagem – livres de INSS e sem reflexo em 13º e férias. Para que sejam reconhecidos como legítimos, os direitos de imagem devem comprovar que a imagem do atleta seja de fato explorada.

Carlos Brickmann
é jornalista e diretor do escritório Brickmann&Associados Comunicação, especializado em gerenciamento de crises. Desde 1963, quando se iniciou na profissão, passou por todos os grandes veículos de comunicação do país. Participou das reportagens que deram quatro Prêmios Esso de Equipe ao Jornal da Tarde, de São Paulo. Tem reportagens assinadas nas edições especiais de primeiras páginas da Folha de S.Paulo e do Jornal da Tarde.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

+ Artigos
Comentários