18 Nov 2021 | domtotal.com

O genocídio de Holodomor

A Sombra de Stalin aborda a história de Gareth Jones, o jornalista galês que desmascarou o ditador comunista

O longa do polonês Agnieszka Holland é estrelado por James Norton numa excelente atuação
O longa do polonês Agnieszka Holland é estrelado por James Norton numa excelente atuação (Robert Palka / Film Produkcja)

Jorge Fernando dos Santos

A pandemia de Covid-19 e o pandemônio causado no Brasil pelo (des)governo federal trouxe de volta ao vocabulário corrente a palavra "genocídio". No entanto, nem todo mundo sabe o significado exato do termo. Genocídio é o extermínio sistematizado de seres humanos, como ocorreu, por exemplo, na Alemanha nazista e também na União Soviética.

Em cartaz na Netflix, o filme A Sombra de Stalin aborda a história de Gareth Jones, o jornalista galês que desmascarou o ditador comunista. Gareth havia ficado famoso por entrevistar Adolf Hitler e não foi difícil conseguir autorização para ir a Moscou, em 1933, para tentar ouvir o líder soviético. No entanto, o que poderia ser uma bela reportagem acabou se transformando num amargo pesadelo.

Concluído em 2019 com o nome original de Mr. Jones, o longa do polonês Agnieszka Holland é estrelado por James Norton numa excelente atuação, ao lado de Vanessa Kirby, Peter Sarsgaard e vários outros. Sarsgaard interpreta Walter Durandy, encarregado da comunicação entre o Ocidente e a União Soviética. Ganhador do Prêmio Pulitzer, Durandy sintetiza o intelectual espúrio, que se vende a uma ideologia da qual se tornará refém.

A Sombra de Stalin é baseado no livro More Than a Grain of Truth, escrito por Margaret Siriol Colley, sobrinha de Gareth Jones. A história gira em torno do Holodomor, palavra ucraniana que significa "deixar morrer de fome ou de inanição". Uma curiosidade do filme é a presença de George Orwell enquanto escreve A Revolução dos Bichos, fábula moderna inspirada na hipocrisia estalinista.

Experiência traumática

A partir de 1932, a retirada dos suprimentos de grãos causou uma grande tragédia em boa parte da Ucrânia, onde cerca de 5 milhões de pessoas de todas as idades morreram por absoluta falta de alimentos. Cadáveres se acumulavam nas ruas e nos campos outrora cobertos de plantações de trigo. Muitos serviram de comida a vizinhos e parentes esfomeados. Essa, aliás, teria sido uma das experiências mais traumáticas vividas por Gareth.

Por mais que grande parte da esquerda internacional tenha tentado minimizar Holodomor, há evidências incontestáveis de que a tragédia foi perpetrada por Stalin. Ele usou a crise para esmagar o nacionalismo e a resistência dos ucranianos à política de coletivização do regime comunista. Seu objetivo era controlar a produção de cereais por meio da requisição compulsória dos grãos, o que aumentou a fome e a revolta.

Desde o início da Revolução, a Ucrânia foi certamente o país da URSS que mais resistiu às medidas arbitrárias de Moscou. Sua autonomia cultural e a insistência do seu povo em manter a identidade nacional tornaram-se uma pedra no caminho da política de integração soviética. A repressão foi tão desumana que serve para explicar o ódio dos ucranianos pela Rússia até os dias de hoje.

O confisco de grãos e a fome programada foi uma forma de punir os resistentes e forçar sua adesão ao regime totalitário. Algo parecido ocorreria mais tarde na China de Mao Tsé-Tung, resultando na maior onda de fome e miséria daquele país. Mais uma prova de que as revoluções geralmente acabam vitimando os inocentes em nome de falsas promessas.  

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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