25 Nov 2021 | domtotal.com

A história de Venda Nova

Trata-se da região mais antiga de Belo Horizonte, surgida antes mesmo de Curral Del Rey

Bruno Viveiros Martins constrói sua narrativa a partir de relatos de personagens locais
Bruno Viveiros Martins constrói sua narrativa a partir de relatos de personagens locais (Bianca de Sá-Papelícula/Conceito Editorial)

Jorge Fernando dos Santos

O historiador Bruno Viveiros Martins lança neste sábado (27/11) o livro Venda Nova, 35º volume da coleção BH – A cidade de cada um, da Conceito Editorial. A sessão de autógrafos será realizada na Livraria Ouvidor Savassi (Rua Fernandes Tourinho, 253), a partir das 11h, observando os cuidados sanitários referentes à Covid-19.

Para quem não sabe, Venda Nova é a região mais antiga de Belo Horizonte. Surgiu antes mesmo de Curral Del Rey se formar em torno da fazenda do bandeirante João Leite da Silva Ortiz, no início do século XVIII. O lugar começou como um entreposto de tropeiros, que levavam suprimentos para Vila Rica, cujo nome seria mudado para Ouro Preto, em 1823.

Morei lá nos meus primeiros anos de vida e sempre tive curiosidade sobre a história local. Lembro-me do mito em torno de Padre Pedro Pinto, o pároco cujo nome foi dado à principal rua da região, onde ficava a nossa casa. Lembro-me da poeira vermelha levantada pelas boiadas, da velha igreja e do antigo cinema em cujas matinês assistíamos aos filmes do Mazzaropi.

Memórias e vivências

Bruno afirma que Venda Nova pertenceu a Sabará, Santa Luzia e Ribeirão das Neves. Isso muito antes de ser anexada a BH, em 1948. Ele explica que, no auge da colonização, o lugarejo desempenhou importante papel comercial, político e religioso. Além de fazendas de gado, a região abrigava empórios e vendas de comerciantes portugueses, vindo daí o nome pelo qual se tornou conhecida.

Doutor em História pela UFMG e professor no Centro Universitário Estácio, o autor buscou entender como um arraial fundado no século XVIII passou a fazer parte de uma capital planejada e construída no final do século XIX. “Enquanto Venda Nova possui mais de 300 anos de história, Belo Horizonte tem pouco mais de 120”, ressalta. Trata-se hoje de uma região quase autônoma, com cerca de 250 mil habitantes.

Bruno construiu sua narrativa a partir de relatos de personagens locais, que desfiam suas memórias e vivências. Além de gente comum, ele ouviu artistas que moram na região, como o cartunista Duke, o humorista Geraldo Magela (o Ceguinho) e a dupla sertaneja Neyde & Nancy.

Liberdade estilística

O livro fala de armazéns, bares, mercearias e antigos mercadinhos locais; do amor da comunidade pelo esporte amador, com destaque para o futebol, o ciclismo e as corridas de cavalo; e também enfoca a luta dos moradores pela melhoria das condições de vida em torno do córrego Vilarinho.

A coleção BH – A cidade de cada um começou a circular em 2004, por iniciativa dos editores José Eduardo Gonçalves e Sílvia Rubião. Trata-se de um projeto flexível, com preços populares (R$ 25 cada volume), no qual cada escritor tem total liberdade estilística. Publicações desse tipo são fundamentais para conhecermos Belo Horizonte, que já perdeu muito de sua memória devido ao descaso municipal.

Vale dizer que tenho muito orgulho de também fazer parte da série de publicações da Conceito, para a qual escrevi o volume 12, intitulado Caiçara, sobre o bairro onde também morei quando saímos de Venda Nova. Com o lançamento do livro de Bruno Viveiros Martins, vejo revisitados os dois territórios da minha infância.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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