26 Nov 2021 | domtotal.com

Bolsonaro não é exatamente uma novidade histórica


Há, no Brasil, um imenso desejo de mudança, cultivado em uma sociedade massacrada pela desigualdade e pelo preconceito, e amordaçado por uma postura ordeira e conservadora, que só topa mudar de forma segura e gradual.

Vivemos a concretização de um ciclo conservador, que se iniciou com a eleição do Collor
Vivemos a concretização de um ciclo conservador, que se iniciou com a eleição do Collor (Clauber Cleber Caetano/PR)

Marcel Farah

Uma aberração, ou um evento totalmente “fora da curva da normalidade” não pode ser visto somente pelo lado ruim. Pelo contrário, parece-me essencial que eventos assim aconteçam, pela riqueza, diversidade e surpresa que propiciam, permitindo o entendimento do que chamamos de normal e anormal.

De outro lado, eventos fora da curva mostram a própria curva de uma maneira mais original. Nos fazem entender melhor o caminho que assumimos como previsível.

Aqueles eventos ou estilos que costumeiramente chamamos de alternativos, em geral, representam estes eventos anormais, fora da curva, exceções às regras, aberrações, ou, novidades. Sim, o essencial é que se trata de algo novo, original, quase.

Esse novo é algo, em geral, temido pelos conservadores. Temido por quem se preocupa em manter as coisas como estão, em manter a previsibilidade do nosso destino coletivo no Brasil, na Terra, ou no universo.

Essa tarefa conservadora é essencial para dar estabilidade à vida comunitária por um lado. Mas, por outro, ao tornar-se impermeável à novidade, pode criar um desestímulo à criatividade a novas formas de ver e de viver em coletivo.

Equilibrar-se sobre estas duas tarefas, conservar e permitir a transformação, é o desafio que angustia nossa política hoje. Pois há, no Brasil, um imenso desejo de mudança, cultivado em uma sociedade massacrada pela desigualdade e pelo preconceito, e amordaçado por uma postura ordeira e conservadora, que só topa mudar de forma segura e gradual.

A luta contra os privilégios de classe, raça, gênero, sexo foi obstruída pelo conservadorismo que aceita um “bolsa família”, ou um “minha casa minha vida”, desde que não haja impostos sobre o capital financeiro, reforma agrária e controle social da mídia privada.

Esse mix marcou os governos progressistas do século 21, que avançaram muito em questões sociais, mas não de forma definitiva, estrutural.

Esse mix permitiu o surgimento de uma força de ultra-direita organizada e concretizada na figura de um Presidente desfigurado como líder da nação, mas marcado como agitador do conservadorismo, e do extermínio dos mais fracos.

A questão é, esse presidente não é um ponto fora da curva, não é o novo, nem surpreendeu os poderosos que o apoiaram e ainda apoiam. A desumanidade não surpreende essa gente há tempos.

Vivemos a concretização de um ciclo conservador, que se iniciou com a eleição do Collor. Ciclo que foi atrasado pelos governos petistas, mas que não deixou de se rearticular em torno do golpe contra a Dilma.

Nos idos de 2016 aproveitaram e incitaram o machismo contra uma mulher que previu, como que profeticamente, o que ocorreria nos anos seguintes caso se sagrasse o golpe, nada fora da curva ou imprevisível.

Dilma denunciou a desestruturação da educação pública, o abandono de políticas de convivência com a seca no semiárido, a redução drástica da renda da população, a queda do investimento, a desestabilização da economia e a inflação, o comprometimento das conquistas de mulheres e LGBTQIA+, a destruição de um mínimo de políticas de bem-estar.

A gota d´água foi o petróleo, o ouro preto. O modelo de partilha construído por Dilma garantia divisão soberana da riqueza, e bilhões de reais ao governo. Sua destruição repassou esse recurso às empresas, e nada restou ao Estado senão as reformas privatistas, que retiram direitos e a austeridade que massacra o povo.

Nada de novo, a sequência Temer, Bolsonaro é pra onde sempre apontou nossa história. No mesmo sentido, a terceira via. Mudança mesmo só com um novo governo popular, que defenda a soberania e a igualdade como prioridades para um novo plano de investimentos, valorização do salário, emprego, com retomada da pesquisa científica e controle inflacionário pela melhora das condições de produção agrícola e dos bens mais necessários à população. Ou seja, somente com um novo governo de esquerda.

Marcel Farah
Advogado e educador Popular

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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