17 Mai 2022 | domtotal.com

O Flagelo da Guerra

Tudo deveria ser resolvido pelo diálogo

Soldados em guerra
Soldados em guerra (Pixabay)

Newton Teixeira Carvalho

Não somos a favor da guerra, em hipótese alguma e muito menos das guerras ofensivas, na busca de ampliação de fronteiras ou aniquilação de povos inteiros. Tudo deveria ser resolvido no campo diplomático, pelo diálogo. E, apesar dos esforços, principalmente do filósofo Kant, na busca de uma paz perpétua, infelizmente, em razão do despotismo de alguns governantes que, debaixo de falsos pretextos, procuram justificar a realização de tais crimes, que leva a milhares de mortes, inclusive de civis, ainda não alcançamos almejada pacificação e tudo indica que não a alcançaremos neste século.

E, mais uma vez a ONU continua obtendo parcos resultados em evitar que novas guerras aconteçam, como a que está em andamento, ou seja, a Guerra iniciada no leste Europeu, da Rússia beligerante contra a população da Ucrânia, iniciada sob o fundamento de que os Ucranianos não poderá pertencer a OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte.

Evidentemente que, cabe ao respectivo país decidir essa afiliação à OTAN. Não é a Rússia quem pode negar tal direito de escolha, não obstante também tal adesão não possa ser imposta pelo país-guia de tal Organização, isto é, pelos Estados Unidos da América do Norte, também com a pretensão de semear guerra longe de seu território.

Vale lembrar neste momento o prefácio lançado por João Quartim de Moraes no livro de Domenico Losurdo, Liberalismo – Entre Civilização e Barbárie, 2021, p. 8: “Sempre na linha de frente ele denunciou com rigorosa objetividade, citando muitas vezes as próprias fontes imperialistas para desvelar suas falácias e hipocrisias, os crimes da máquina de guerra da Otan, decidida a aniquilar, uns depois dos outros, os governos que se recusavam, na zona do Mediterrâneo e na Ásia ocidental, a aceitar o estatuto neocolonial. Reconstituindo, com muitos fatos e poucos adjetivos, as três agressões bélicas com que o governo estadunidense e seus satélites comemoraram o desmonte da URSS, ele publicou, no final do século passado, o artigo “Panamá, Iraque, Iugoslávia: os Estados Unidos e as guerras coloniais do século XXI” (...), que anunciava a nova série de invasões desencadeadas pelas potências da Otan no início do novo milênio: Afeganistão em 2001, Iraque 2003, Líbia em 2011.”.

O autor prefaciado por João Quartim, Losurdo, filósofo, ensaísta e historiador italiano, que lecionou na Universidade de Urbino, na Itália, em seus diversos livros, vários traduzidos no Brasil, “pôs em evidência os aspectos perversos do

liberalismo: sua íntima conexão com o imperialismo, sua longa cumplicidade com o tráfico de africanos e com a escravidão, bem como as discriminações de renda, condição social, raça, etnia em que baseou suas instituições políticas” (João Quartim de Moraes, p. 8).

E a preocupação de Losurdo com o neocolonialismo surge, considerando que, enquanto se comemorava o desmonte das URSS, o “The New York Times reproduziu o brado triunfal de Paul Johnson, historiador britânico de extrema-direita “Finalmente o colonialismo está de volta”. Já era hora” (João Quartim de Moraes, p. 8).

Portanto, o livro de Losurdo – Liberalismo – entre Civilização e Barbárie, é uma crítica ao liberalismo, que permite a manutenção da desigualdade, principalmente entre os povos dominados, que foram utilizados pelos povos colonizadores como “puxa de canhão” para continuar com a expansão imperialista.

A expressão “bucha de canhão” surge considerando que os soldados colonizados combatiam, sem maiores treinamentos, na linha de frente e muitos eram mortos, enquanto se poupava os soldados dos povos colonizadores. Aliás, a nobreza se recusou, enquanto pode, a lutar na guerra, em razão do privilégio que possuía. Assim e para os campos de batalhas iam primeiros os colonizados, depois os pobres dos países guerreiros e somente tempos depois é que a convocação foi realizada democraticamente, em razão da idade.

E o interessante de Losurdo é a desmistificação que esse autor, que precisa ser mais lido no Brasil, faz com relação a diversos países, inclusive os Estados Unidos, chamado de berço da democracia, e que, entretanto, os primeiros Presidentes daquele país foram proprietários de escravos e também discriminavam os pobres, naturalizavam a pobreza. Além de lá ter acontecido, sem punição alguma, o genocídio dos peles-vermelhas, que serviu de exemplo negativo a vários outros povos, inclusive ao teratológico Hitler, anos depois.

De ressalvar-se que o país que mantêm discriminação em razão de raça ou cor, também não pode ser considerado um país democrático. E Losurdo demonstra que os Estados Unidos foi o laboratório de inúmeras atrocidades que vieram a ser praticadas ou aperfeiçoadas por Hitler, a exemplo dos campos de concentração, da proibição de casamento inter-racial, de leis excludentes e de diversos trabalhos eugênicos, na busca de um controle racial mais eficaz.

Ainda nesta proposta de demonstrar a razão de, em pleno século XXI, estarmos debaixo de uma guerra selvagem, da Rússia contra a Ucrânia, a justificativa está no colonialismo e no imperialismo, ainda reinante. Assim, Losurdo também destaca o exemplo negativo de um filósofo famoso, que é Karl Popper, que afirmou, sem maiores dificuldades, que as colônias foram libertadas prematuramente. E é o mesmo Popper que reabilita o colonialismo, rotulando, metaforicamente, de progresso.

Outros pensadores liberais, eminentes, também aderiram a tal proposta, ou seja, que a colonização deveria persistir, considerando que os povos bárbaros precisavam de professores, crianças que eram, para que aprendessem e pudessem ser incluídos na civilização, se sobreviventes. E com isto inúmeras brutalidades foram praticadas nas colônias, inclusive as discriminações étnicas raciais.

Portanto, legitimadas foram por notáveis pensadores as expedições punitivas “contra os bárbaros à comunidade do “mundo civilizado”, ou seja, contra as crianças refratárias à ação educativa do Ocidente” (Losurdo, Liberalismo – Entre Civilização e Barbárie, p. 16). E olvidado restou que a expansão colonial implicou no “extermínio de raças inferiores” e na escravização ou semi-escravização de inúmeras pessoas, numa relação de trabalho servil que lhes eram impostas.

Necessário terminar este artigo ainda com Losurdo, agora voltado pelo domínio inglês na Índia: “É preciso considerar também a brutalidade política e militar da conquista e da dominação colonial: “a tortura forma uma instituição orgânica da política financeira do governo” inglês na Índia, “o estupro, o massacre a ferro e fogo de criança, o incêndio das aldeias são entretenimento gratuitos dos “oficiais e funcionários ingleses” que se arrogam e exercem sem moderação “poderes ilimitados de vida e de morte”.” (Losurdo, p. 23/24)

E ainda há intelectuais que apoiaram (e apoiam) tal estado de coisa, como também tivemos filósofos que sustentaram o nazismo, a exemplo de Heiddeger.

Newton Teixeira Carvalho
Pós-Doutorado em Docência e Investigação pelo Instituto Universitário Italiano de Rosário (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1ª Vara de Família até junho de 2012. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor e coautor de vários livros e artigos na área de família, direito ambiental e processual civil.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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