18 Mai 2022 | domtotal.com

A verdade nua e crua

Burros não chegam ao Congresso

Congresso Nacional, em Brasília
Congresso Nacional, em Brasília (AFP)

Carlos Brickmann

Em política há certas verdades evidentes por si sós, indesmentíveis. Por exemplo, o Congresso é quase um retrato do país. Lá há pessoas honestas, há ladrões, há cultos e incultos, tolerantes e intolerantes, descrentes e crentes, antipáticos, simpáticos. Só não há burros, porque burro não chega lá.

Bolsonaro foi deputado por quase 30 anos – logo, burro não é. Montou um bom esquema para colocar os filhos mais velhos nas diversas casas legislativas, garantindo o futuro de todos. Pode-se dizer dele o que se quiser, grosseiro, inepto, prepotente, demagogo. Mas definitivamente não é burro.

Então vale estudar com cuidado sua iniciativa de demitir o almirante Bento Albuquerque do Ministério de Minas e Energia. Há a evidente pitada de demagogia, de fingir combater a alta de preços dos combustíveis. Mas há também outro fator: o imenso gasoduto do Nordeste, que deve custar R$ 100 bilhões em dinheiro público para beneficiar empresários privados. Destes, o mais visível é Carlos Suarez (que era o S da OAS), dono de oito concessões para distribuição de gás no Nordeste. Mas há muito mais gente a ganhar com a obra – que, hoje, é a grande reivindicação do Centrão. A empresa de Suarez leva o gás pelo Centrãoduto até cada região, onde há empresários que fazem a distribuição a varejo. Há as obras, há de tudo. Há oportunidades imensas, o que é ótimo – mas só se investe dinheiro público, em princípio da PPSA, a Pré-Sal Petróleo, comandada pelo Ministério de Minas e Energia.

E o almirante?

Bento Albuquerque não quis pagar o gasoduto. Por que os empresários não investem, se irão lucrar? O almirante foi secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação e diretor-geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha. Se é para investir, por que não nos submarinos?

Bolsonaro com Putin

Os investimentos nos submarinos (oito convencionais e um de propulsão nuclear) se liga com a visita de Bolsonaro a Putin, dias antes da invasão da Ucrânia. A ocasião errada levou Bolsonaro a falar bobagem. Mas o objetivo real era obter dos russos algo essencial ao submarino nuclear, e que os EUA nos têm negado: como transformar a energia do reator em propulsão. Um só submarino de propulsão nuclear multiplica o poderio do país. Podendo ficar submerso por longos períodos, não é detectável, e pode retaliar, com armas convencionais, quem quer que ataque o Brasil. O almirante prefere que o investimento que o Centrão quer no gasoduto seja feito no submarino. No nuclear ou nos convencionais, que também estão sem verbas.

Esperando

O primeiro submarino convencional aqui construído está quase pronto. Já navega e deveria ser entregue no começo do ano. Mas faltaram detalhes (que, aliás, continuam faltando: o principal é o sistema de ancoragem). Faltam verbas. A entrega está prevista, agora, para a segunda quinzena de junho.

Deve ser desagradável para Bolsonaro ter no Ministério um almirante de alta qualificação querendo desenvolver nosso poder naval e atrapalhando os projetos do Centrão de desenvolver seu poder eleitoral. Pense no pessoal do Centrão. Pense agora na festa que fariam com cem bilhões de reais.

Festa e campanha

Lula e Rosângela, Janja, se casam hoje em São Paulo, com festa para 200 pessoas. É casamento, mas faz parte da campanha: como ele mesmo disse no lançamento de sua chapa com Alckmin, “um cara que tem 76 anos e está apaixonado, que está querendo casar, só pode fazer o bem para este país”. E nas redes sociais postou mensagens eleitorais e de amor. Exemplo: “Estou á apaixonado e vou casar para mostrar minha confiança no futuro deste país”.

O véu dos noivos

Lula tenta, na medida do possível, garantir certa privacidade em seu casamento – como se isso fosse possível com 200 convidados, como se isso fosse possível quando o noivo é o ídolo de boa parte da população do país. Pede, por exemplo, que ninguém entre na festa com celulares; não divulgou o lugar em que ocorrerão cerimônia e festa; não divulgou o que será servido aos convidados. Resultado: já há versões circulando na Internet com marcas de bons espumantes espanhóis, uísques, onze mesas de alimentos, divididas por origem: árabe, nordestina, japonesa, chinesa, frutos do mar, etc. Se a versão correta não vazar, vai prevalecer a versão dada por quem não esteve lá. E nesta versão, por exemplo, só há bebidas caras: nem se fala na marvada.

Acredite se quiser

A Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei apresentado pela então deputada e pastora Flordelis dos Santos Souza, que institui o 15 de Maio como Dia Nacional do Apadrinhamento Afetivo. Flordelis está presa, acusada do assassínio triplamente qualificado de seu marido, o pastor Anderson do Carmo.

Carlos Brickmann
é jornalista e diretor do escritório Brickmann&Associados Comunicação, especializado em gerenciamento de crises. Desde 1963, quando se iniciou na profissão, passou por todos os grandes veículos de comunicação do país. Participou das reportagens que deram quatro Prêmios Esso de Equipe ao Jornal da Tarde, de São Paulo. Tem reportagens assinadas nas edições especiais de primeiras páginas da Folha de S.Paulo e do Jornal da Tarde.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

+ Artigos
Comentários