20 Mai 2022 | domtotal.com

As herdeiras de Chiquinha Gonzaga

Chorosas aplicam tempero próprio à interpretação de clássicos do choro

Priscila Norberto, Poliana Soares, Manu Dias, Mariana Martins e Cecília Correia tocam no Cantim Noir
Priscila Norberto, Poliana Soares, Manu Dias, Mariana Martins e Cecília Correia tocam no Cantim Noir (JFS/Divulgação)

Jorge Fernando dos Santos

Belo Horizonte sempre cultivou a tradição das rodas de choro. Não é de hoje, bares da cidade promovem o encontro de instrumentistas de todas as idades, adeptos desse gênero musical. Inicialmente, as moças se contentavam em apenas assistir às apresentações. No entanto, nos últimos tempos, elas resolveram entrar na roda, sem nada dever aos rapazes.

É o caso de Raissa Anastácia, flautista de formação erudita cujo estilo musical lembra o saudoso Altamiro Carrilho. A primeira vez em que a vi foi no extinto Mosteiro, restaurante da Savassi cujas rodas musicais comandadas pelo “sete cordas” Wagner Andrade marcaram minhas noitadas de sexta-feira, em meados da década passada.

Multi-instrumentista, Raissa não demorou a se impor no cavaquinho, integrando o Choro com Elas, regional feminino que vem se destacando na cidade. Quem assistiu à edição mais recente do projeto Minas ao Luar (realizada pelo Sesc-MG na Praça Duque de Caxias, na manhã domingueira de 24/4), teve a oportunidade de vê-la brilhando ao lado das colegas.

Convidadas pelo Clube do Choro a participar do evento, elas homenagearam o padrinho José Carlos Choairy, que aos 87 anos é um dos cavaquinistas mais presentes nas rodas de choro locais. E foi justamente ele quem me levou na última sexta-feira (13/5) ao Cantim Noir, na Contorno 3.588, para conhecer o trabalho das Chorosas. Foi uma noite reveladora, marcada por interpretações originais – incluindo a “canja” do próprio Zé Chorão.

Receita clássica

O choro é quase sempre tocado de forma padronizada. Independentemente da formação dos músicos, firmou-se em torno dele uma receita clássica pouco afeita a inovações. O próprio choro-canção ainda enfrenta o

preconceito de tradicionalistas, muito embora a “rainha do choro”, Ademilde Fonseca, tenha ajudado a popularizar o gênero em todo o país.

As Chorosas aplicam tempero próprio à interpretação de clássicos do choro. Para início de conversa, o grupo não tem violão de sete cordas, instrumento fundamental nas rodas tradicionais. Com excelente performance, Mariana Martins ressoa os bordões no violão de seis. Enquanto isso, a flauta transversal de Priscila Norberto dialoga com o clarinete docemente soprado por Poliana Soares.

Na sexta-feira passada, a caçulinha Cecília Correia substituiu Christiane Cordeiro no cavaquinho, enquanto Manu Dias tocou pandeiro – instrumento cuja titularidade no grupo é revezada por Marina Gomes e Deise Oliveira. À levada do choro, as Chorosas acrescentam pitadas de frevo, jazz e foxtrote, propondo novas soluções harmônicas na somatória de ritmos.

Outro diferencial do grupo é que as meninas tocam de olho na partitura, o que lhes acrescenta o charme da erudição, sem deixar de lado o improviso. Além de clássicos de bambas como Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Waldir Azevedo e Jacob do Bandolim, o repertório inclui composições próprias de muito bom gosto.

Lições da mestra

Nascido no final do século XIX, filho da polca com o lundu, o popular chorinho é carioca da gema e não demorou a se tornar um dos principais amálgamas da música brasileira, ao lado do samba e do baião. Apesar do machismo da época em que surgiu, uma de suas primeiras estrelas foi a pianista e compositora Chiquinha Gonzaga.

Filha de um oficial militar branco com uma dona-de-casa afrodescendente, Chiquinha desafiou os padrões estabelecidos, ao trocar o piano clássico pelo popular. Além disso, foi pioneira na luta pela emancipação feminina e pela profissionalização de músicos, compositores e autores teatrais brasileiros.

De certo modo, as instrumentistas que hoje adentram as rodas de choro são suas herdeiras e continuadoras de sua obra. Nesse sentido, podemos esperar bem mais das Chorosas. A julgar pela apresentação dessa sexta-feira, elas têm muito a acrescentar à cena do choro em Belo Horizonte

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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