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Uma poeta reclusa

02/10/2015 06:00:06

Maria do Carmo: ainda sem livro.
Maria do Carmo: ainda sem livro.

Por Carlos Ávila

Não poderia ter começado melhor, publicando no quinto e último número de “Invenção” (revista de arte de vanguarda), em 1967, o seu ousado e criativo “Meretrilho” – poema de cinco estrofes, cada qual com quatro linhas (não versos: apenas palavras-valise, com letras espaçadas), dispostas visualmente em diagonal na página. Segue a estrofe final para que o leitor tenha ideia da forma do poema:

m o s c a m e n i s c a

m e n i n g e p u b i a

v a g i p e n i s o l a

c l i t o r i s p u t a

Estamos falando da desconhecidíssima poeta mineira Maria do Carmo Ferreira, nascida em 1938 – ainda sem um único livro publicado! Décio Pignatari – editor da revista (e um entusiasta de sua poesia) assim a apresentou aos leitores: “Maria do Carmo Ferreira, nascida em Cataguases, MG, é professora de língua e literatura brasileira. Seu poema aqui publicado destaca-se na safra da mais jovem poesia brasileira pelo arrojo da linguagem e do tema”.

Daí em diante, Maria do Carmo continuou escrevendo muito (fazendo também inusitadas recriações de poemas em inglês e francês), publicando muito raramente aqui e ali (por ex. na revista-plaquete “Vereda” e no Suplemento Literário/MG, desde os anos 60), mas até hoje continua inédita em livro; publiquei dois ou três poemas dela, quando editei o jornal (1995/98).

Aliás, deve-se ao SLMG a pouca divulgação que Maria do Carmo teve até agora: em março de 2000 (nº 57) saiu uma espécie de dossiê da poeta – com entrevista, vários inéditos e traduções; em novembro de 2013, num número especial sobre a modernidade de Cataguases (organizado por Ronaldo Werneck), um pequeno artigo sobre ela, acompanhado por três poemas.

A trajetória de Maria do Carmo – que escreve desde menina – inclui passagens por BH (onde se formou em Letras/UFMG e lecionou), São Paulo, Europa e EUA (mestrado em Literatura Comparada na Universidade de Illinois); na volta, morou e trabalhou no Rio – trinta anos na Radio MEC, por onde se aposentou; vive atualmente em Niterói (nunca deu bola para fama e moda!).

Pignatari novamente (em março de 2000): “Sempre gostei de seus poemas e fiquei esperando mais. Quando surgia um novo poema de Maria do Carmo, eu me interessava. Mas ela aparecia e desaparecia, brincando de esconde-esconde com a poesia e com o público. Cada palavra que escreve quer dizer alguma coisa. Ela tem um jeito moderno, forte e agressivo”.

Maria do Carmo Ferreira: poeta reclusa, poeta da recusa – seguidora radical de Emily Dickinson: “publicar é o leilão/da nossa mente”. Talvez algum dia se possa ler sua poesia em livro.

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