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Poesia em viagem

20/01/2016 06:00:38

Age: pouco lido e conhecido no país.
Age: pouco lido e conhecido no país.

Por Carlos Ávila

Lançado no ano passado, pela Editora da Universidade Federal do Pará – EDUFPA, “Ainda: em viagem” – último livro do poeta paraense Age de Carvalho, que vive há anos na Europa (desde 1986, entre Viena e Munique) – passou quase despercebido entre nós. Pouco ou nenhum retorno crítico recebeu.

Talvez o fato de viver no exterior e de não participar de forma presencial e mais ativa do cenário poético brasileiro, tenha deixado Age um tanto esquecido por aqui (o que ocorreu também, anteriormente, com o grande Murilo Mendes, radicado em Roma). Suas incursões pelo país têm sido rápidas e pontuais, em geral limitando-se ao Rio e a Belém, sua cidade natal; ele vive numa espécie de “duplo exílio – geográfico e poético”, como bem observou o crítico Manuel da Costa Pinto.

Nascido em 58, Age vem construindo com persistência e constância uma obra muito peculiar, um pouco à margem das tendências mais marcantes da atual poesia brasileira (que contempla, na sua diversidade, desde a incisiva e agressiva verbalização sobre nosso “estado crítico”, na poesia urbana de um Régis Bonvicino, até a dissolução de referentes e a abstração semântica de um Júlio Castañon Guimarães – isso para ficar apenas em dois nomes expressivos).

Já são oito ou nove títulos publicados por Age; “Ainda: em viagem”, livro dividido em seis seções, reafirma (e acentua) seu processo poético fragmentário e algo velado – radicalizado em construção concisa; há uma trava sintático/semântica na sua poesia que remete a Paul Celan e a João Cabral (seguramente referenciais na poesia do paraense, entre outras “fontes”). Trata-se de uma poesia de fruição exigente, que não se entrega à primeira leitura.

Há ainda nesses poemas o corte abrupto de linhas (que não chegam a constituir versos no sentido convencional) e palavras; descontinuidades e interpolações – atritos da matéria verbal resultando em uma sonoridade atonal: “errando, errando –/Apátria, Exlândia, Des-/terra, há anos: esse Estado/teu estado, de estar/em-viagem”.

Sob o signo do estranhamento, essa poesia inclui citações e evocações-hommages (como a tocante sequência de poemas sobre o amigo desaparecido, o também poeta Max Martins – na sexta e última seção do livro; verso-conversa entre o vivo e o morto: “uma segunda vida,/a segunda vinda,/outra vez perdida a floração/do Arvoredo/este ano, outro ano/sem o Amigo”).

Numa visada rápida, assim se articula a poética de Age de Carvalho – nome representativo no cenário atual; poesia “em viagem” – linguagem em tensão e trânsito contínuo, ainda a demandar maior (e mais profunda) leitura e atenção por parte da crítica; abaixo, uma das peças desse seu novo e instigante livro.

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EU, INTIMO-ME

a reconhecer

(em ti, contigo

em viagem – nós,

dois faróis na estrada

farejando a escuridão luxuosa,

abolido tempoespaço

à visão da grande nebulosa:

tu, era eu-todo-estrelado,

o céu, espelho)

-me em

mim-mesmo.

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