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Medalhões

22/01/2016 06:00:11

Cruz e Sousa & Alphonsus: encontro no Rio.
Cruz e Sousa & Alphonsus: encontro no Rio.

Por Carlos Ávila

Em 1945, saiu pela Livraria Agir Editora um pequeno volume da poeta mineira Henriqueta Lisboa (1901/1985) sobre a vida e a obra do simbolista, também mineiro, Alphonsus de Guimaraens (1870/1921) – nascido em Ouro Preto, o poeta de “Kyriale” e “Pauvre Lyre” (seus versos em francês, onde, inclusive, homenageia Mallarmé) passou quase toda sua vida enfurnado em Mariana, onde foi juiz municipal.

Em 1919, Mário de Andrade se deslocou de São Paulo apenas para conhecer Alphonsus – admiração do modernista (esse encontro inspirou o longo poema “A visita”, de Drummond); o poeta mineiro parafraseou Verlaine e Mallarmé, traduziu Heine e poetas chineses, a partir de versões francesas.

O ensaio de Henriqueta constitui uma das conferências da série “Nossos grandes mortos”, iniciativa de Gustavo Capanema, então Ministro da Educação no governo Vargas (Drummond foi seu chefe de gabinete, no Rio de Janeiro); a série buscava resgatar “figuras admiráveis de nosso passado ainda não devidamente estudadas” – como assinala Capanema no prefácio do volume de Henriqueta.

No livro, Henriqueta estuda aspectos diversos da obra de Alphonsus, incluindo também as origens e características do movimento simbolista na França e no Brasil; analisa vários livros publicados pelo poeta dando, ao final, uma visão de sua presença e influência na literatura do país.

Henriqueta aproxima Alphonsus & Cruz e Sousa (1861/1898) – “as duas figuras mais nítidas do Simbolismo brasileiro” (págs. 19 e 20); bastante interessante e divertida é a passagem em que Henriqueta, citando o escritor Mário Matos, fala no encontro ocorrido no Rio entre o poeta negro de Florianópolis e o lírico de Mariana.

“Disse Mário Matos, numa esplêndida página, a respeito de Alphonsus: ‘Foi ele o homem que menos se moveu em Minas, onde ninguém gosta de andar’. E com razão. Ao Rio, foi apenas uma vez em toda a vida, com o fim especial de conhecer Cruz e Sousa. Silenciam as crônicas a respeito do encontro entre os dois grandes poetas”.

Henriqueta acrescenta: “Apenas de um fato ligeiro se guarda a lembrança: correspondia-se o vate montanhês com Coelho Neto, de há muito. Vendo-o passar na rua e estando ao lado do poeta negro, exclama: ‘Olha ali o Coelho Neto! Vamos falar com ele!’ Cruz e Sousa impede-o, rude: ‘Não! Eu detesto essa gente!’. Esta gente eram os medalhões do tempo, os indiscutidos, os dogmáticos”.

Ainda hoje temos os nossos “medalhões” da poesia – também indiscutidos e dogmáticos.

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