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Márioswald

27/01/2016 06:00:02

Mário & Oswald de Andrade.
Mário & Oswald de Andrade.

Por Carlos Ávila

Na bolsa de valores literários, autores sobem e descem, oscilam através dos tempos; um poeta ou prosador que está hoje na ordem do dia, daqui a alguns anos “desaparece”, é esquecido e pouco (ou nada) lido; mais adiante pode ser resgatado – ou sumir “para sempre”; enquanto isso novos nomes aparecem aqui e ali e outros mais antigos, inesperadamente, reaparecem.

Os Andrades – Mário & Oswald –, a exemplo de outros escritores, “vivem” em constante oscilação; pelo menos, como poetas (o Mário de “Macunaíma” e dos ensaios de cunho didático-acadêmico oscila menos; sempre esteve mais inserido no sistema literário brasileiro que Oswald).

Do final dos anos 1960 até, mais ou menos, os anos 80, os dois poetas paulistas estiveram em alta, especialmente Oswald (lembre-se sua redescoberta pelo concretismo e sua forte influência no tropicalismo). Mais adiante, com o refluxo desses dois movimentos – e o consequente surgimento de novas direções/dicções poéticas – Mário & Oswald foram, de certa forma, para “segundo plano”; enquanto Drummond e Cabral, por ex., continuavam em valorização constante (subindo na tal bolsa de valores literários).

Porém, no ano passado, Mário voltou à cena com alguma força – foi homenageado, nos seus 70 anos de morte, pela sempre comercial e midiática FLIP (Oswald parece ainda muito indigesto para os organizadores do evento); teve alguns títulos relançados (inclusive uma versão em quadrinhos de “Macunaíma”!). Agora, lemos nos jornais que sua obra caiu em domínio público – espera-se uma “enxurrada” de novas edições do modernista (as editoras não dormem no ponto na hora de faturar sem gastos com direitos autorais).

E Oswald? Voltou à mídia agora também, mesmo que rapidamente, em função da localização de sua garçonnière (local de encontros amorosos e intelectuais do poeta e de sua turma em 1917/18, na Rua Líbero Badaró, centro de São Paulo), pelo competente jornalista/pesquisador Luís Antônio Giron (“Folha de SP” – 20/12/2015).

E mais: Oswald está sendo homenageado, no momento, em Paris; juntamente com outros vanguardistas do séc. 20 – como Breton, Gertrude Stein e Blaise Cendrars – Oswald é destaque na mostra Museum Live, no Museu Nacional de Arte Moderna. O poeta aparece como uma espécie de mediador entre as vanguardas brasileira e francesa – Oswald de Andrade: Passeur Anthropophage é o título da exposição.

Amigos nos primórdios do modernismo e nos preparativos da famosa “Semana”, os dois Andrades chegaram a assinar juntos (“Márioswald”) um poema dedicado aos jovens da revista “Verde”, de Cataguases. Afastaram-se depois; Oswald – ousado e cosmopolita; Mário – cultíssimo, mas algo conservador e nacionalista (duas faces de uma mesma moeda?).

O grande poeta-crítico Mário Faustino destacou a importância não só dos dois, mas dos “três Andrades”; num dos seus ensaios assinalou com precisão: “Mário, Oswald, Carlos. A cultura, a revolução, a boa poesia”.

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