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Muriliana

03/02/2016 08:48:17
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"As metamorfoses" de Murilo: capa da tradução italiana.
“As metamorfoses” de Murilo: capa da tradução italiana.

Por Carlos Ávila

Chegou às minhas mãos uma das vinte plaquetes da “Muriliana” lançada pela Espectro Editorial. Trata-se de mais uma das edições raríssimas, de tiragem mínima, confeccionadas artesanalmente pelo poeta-tradutor Ronald Polito, em Juiz de Fora. Publicada em abril de 2015, essa é a trigésima nona plaquete editada por Polito; com fonte Garamont e diagramação de Luciana Inhan – a capa traz uma rubrica do grande Murilo Mendes (1901/1975), um dos maiores poetas brasileiros do séc. 20, que se radicou em Roma nos anos 50.

Organizada pelo poeta-tradutor e ensaísta Júlio Castañon Guimarães, especialista na obra de Murilo, “Muriliana” traz imagens de capas ou folhas de rosto de livros, revistas e catálogos de exposições – “bem como de algumas outras publicações de natureza diversa”, segundo o organizador – que contêm textos do poeta. Trata-se de uma pequena edição, simples e sofisticada a um só tempo, que encanta o leitor; ao final, traz a lista das 86 imagens incluídas (local, editora, data da publicação etc.).

Desfilam pelas páginas capas originais, de primeiras edições, como a de “Janela do caos”, livro de Murilo acompanhado por seis litografias de Picabia (Paris, Imprimerie Union Paris, 1949) – raridade bibliográfica; “Office Humain” (Paris, Seghers, 1957; antologia traduzida por Saudade Cortesão, mulher de Murilo, e Dominique Braga); ou ainda “Tempo espanhol” (Lisboa, Morais, 1959) – o melhor livro de poemas de Murilo, na minha visão.

Afora essas capas de livros, há também uma série de revistas importantes que acolheram poemas e artigos de Murilo (“Europe”, “Tempo presente”, “L’Europa Letteraria”, “Revista de cultura brasileña”, “Etudes litteraires”, “Colóquio Letras” etc.); nessas publicações, o nome do poeta – o mais culto e cosmopolita da primeira metade do séc. 20 entre nós – está estampado ao lado de Lorca, Yevtushenko, Ungaretti (que o traduziu para o italiano), Michaux, Borges, Montale, Neruda etc.

Incrível também é a quantidade de reproduções de capas de catálogos de exposições com textos de Murilo – conhecido na Itália como importante crítico de artes plásticas (atividade que sempre exerceu com conhecimento e “olho armado”, desde o Brasil; vejam-se seus textos sobre Ismael Nery, Lasar Segall e tantos outros). Na Europa, Murilo manteve contato com muitos artistas e visitou ateliês; escreveu sobre nomes como Capogrossi, Magnelli, Piero Dorazio, Arpad Szenes, Achille Perilli, Sonia Delaunay, Fontana, Soto etc.

Mas voltemos à “Muriliana”; como observou Drummond, “podem os enjoados resmungar que o livro de tiragem mínima é fruto de uma cultura decadente, a demitir-se de sua função social, que é luxo de mandarins, e ofende o povo. Não ofende nada, e, se repararmos bem contribui para reintegrar o homem em sua dignidade, valorizando o artesanato na era da fabricação de milhões”.

Esta “Muriliana” é uma joia rara – e poderia ganhar, sim, uma edição comercial com tiragem maior. Mas, num país onde a reedição das obras completas do próprio Murilo (pela Cosac Naify) foi interrompida…

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"As metamorfoses" de Murilo: capa da tradução italiana.
“As metamorfoses” de Murilo: capa da tradução italiana.

Por Carlos Ávila

Chegou às minhas mãos uma das vinte plaquetes da “Muriliana” lançada pela Espectro Editorial. Trata-se de mais uma das edições raríssimas, de tiragem mínima, confeccionadas artesanalmente pelo poeta-tradutor Ronald Polito, em Juiz de Fora. Publicada em abril de 2015, essa é a trigésima nona plaquete editada por Polito; com fonte Garamont e diagramação de Luciana Inhan – a capa traz uma rubrica do grande Murilo Mendes (1901/1975), um dos maiores poetas brasileiros do séc. 20, que se radicou em Roma nos anos 50.

Organizada pelo poeta-tradutor e ensaísta Júlio Castañon Guimarães, especialista na obra de Murilo, “Muriliana” traz imagens de capas ou folhas de rosto de livros, revistas e catálogos de exposições – “bem como de algumas outras publicações de natureza diversa”, segundo o organizador – que contêm textos do poeta. Trata-se de uma pequena edição, simples e sofisticada a um só tempo, que encanta o leitor; ao final, traz a lista das 86 imagens incluídas (local, editora, data da publicação etc.).

Desfilam pelas páginas capas originais, de primeiras edições, como a de “Janela do caos”, livro de Murilo acompanhado por seis litografias de Picabia (Paris, Imprimerie Union Paris, 1949) – raridade bibliográfica; “Office Humain” (Paris, Seghers, 1957; antologia traduzida por Saudade Cortesão, mulher de Murilo, e Dominique Braga); ou ainda “Tempo espanhol” (Lisboa, Morais, 1959) – o melhor livro de poemas de Murilo, na minha visão.

Afora essas capas de livros, há também uma série de revistas importantes que acolheram poemas e artigos de Murilo (“Europe”, “Tempo presente”, “L’Europa Letteraria”, “Revista de cultura brasileña”, “Etudes litteraires”, “Colóquio Letras” etc.); nessas publicações, o nome do poeta – o mais culto e cosmopolita da primeira metade do séc. 20 entre nós – está estampado ao lado de Lorca, Yevtushenko, Ungaretti (que o traduziu para o italiano), Michaux, Borges, Montale, Neruda etc.

Incrível também é a quantidade de reproduções de capas de catálogos de exposições com textos de Murilo – conhecido na Itália como importante crítico de artes plásticas (atividade que sempre exerceu com conhecimento e “olho armado”, desde o Brasil; vejam-se seus textos sobre Ismael Nery, Lasar Segall e tantos outros). Na Europa, Murilo manteve contato com muitos artistas e visitou ateliês; escreveu sobre nomes como Capogrossi, Magnelli, Piero Dorazio, Arpad Szenes, Achille Perilli, Sonia Delaunay, Fontana, Soto etc.

Mas voltemos à “Muriliana”; como observou Drummond, “podem os enjoados resmungar que o livro de tiragem mínima é fruto de uma cultura decadente, a demitir-se de sua função social, que é luxo de mandarins, e ofende o povo. Não ofende nada, e, se repararmos bem contribui para reintegrar o homem em sua dignidade, valorizando o artesanato na era da fabricação de milhões”.

Esta “Muriliana” é uma joia rara – e poderia ganhar, sim, uma edição comercial com tiragem maior. Mas, num país onde a reedição das obras completas do próprio Murilo (pela Cosac Naify) foi interrompida…

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