Blog CULTURA

Carnaval nas Cartas Chilenas

05/02/2016 06:00:28
teste string(3661) "
Entrudo: quadro de Debret (1768/1848).
Entrudo: quadro de Debret (1768/1848).

Por Carlos Ávila

As famosas “Cartas chilenas” – longo poema satírico escrito na segunda metade do séc. 18, assinado por Critilo, pseudônimo de Tomás Antônio Gonzaga (1744/1810) – são uma crítica violenta e mordaz à administração do governador Luís da Cunha Menezes, ali representado burlescamente como o “Fanfarrão Minésio”.

No poema, Gonzaga usa toda a sua técnica verbal para fazer a “crônica” daquele período em Ouro Preto (então Vila Rica) assinalando o que ele considerava condenável, ou seja, os desacertos de conduta e administrativos de Cunha Menezes.

Na 11ª Carta há uma curiosa e precursora referência ao Carnaval (“Entrudo”, no texto), onde se descrevem batuques e danças na “casa aonde habita o grande chefe”, ou seja, a “orgia” no palácio de Cunha Menezes.

Segundo o poeta e ensaísta Affonso Ávila (1928/2012), pesquisador do Barroco mineiro, “o carnaval então como hoje, já constituiria a festa popular de sentido mais democrático, igualando ricos e pobres, humildes e poderosos”.

E mais: “O curioso governador Cunha Menezes, despindo-se dos foros de nobreza, alardeando o seu populismo, a sua ausência de preconceitos quase sempre mal interpretada pelo aristocrático poeta das ‘Cartas chilenas’, não deixava de aderir ao ritmo do Entrudo”.

“Precursor do atual samba” – ainda segundo Ávila – “o batuque começava a sua ascensão social, passando das senzalas aos salões, tendo ‘entrada/nas casas mais honestas e palácios’”.

Reproduz-se aqui um trecho das “Cartas chilenas” (na edição crítica do filólogo português Rodrigues Lapa) que mostra o carnaval na visão de Gonzaga – primeira referência literária em Minas Gerais a essa festa.

*****

Fingindo a moça que levanta a saia

e voando na ponta dos dedinhos,

prega no machacaz, de quem mais gosta,

a lasciva embigada, abrindo os braços.

Então o machacaz, mexendo a bunda,

pondo uma mão na testa, outra na ilharga,

ou dando alguns estalos com os dedos,

seguindo das violas o compasso,

lhe diz – “eu pago, eu pago” – e, de repente,

sobre a torpe michela atira o salto.

O dança venturosa! Tu entravas

nas humildes choupanas, onde as negras,

aonde as vis mulatas, apertando

por baixo do bandulho a larga cinta,

te honravam cos marotos e brejeiros,

batendo sobre o chão o pé descalço.

Agora já consegues ter entrada

nas casas mais honestas e palácios!

Ah! Tu, famoso chefe, dás exemplo.

Tu já, tu já batucas, escondido

debaixo dos teus tetos, com a moça

que furtou ao senhor o teu Ribério!

Tu também já batucas sobre a sala

da formosa comadre, quando o pede

a borracha função do santo Entrudo.

"
Entrudo: quadro de Debret (1768/1848).
Entrudo: quadro de Debret (1768/1848).

Por Carlos Ávila

As famosas “Cartas chilenas” – longo poema satírico escrito na segunda metade do séc. 18, assinado por Critilo, pseudônimo de Tomás Antônio Gonzaga (1744/1810) – são uma crítica violenta e mordaz à administração do governador Luís da Cunha Menezes, ali representado burlescamente como o “Fanfarrão Minésio”.

No poema, Gonzaga usa toda a sua técnica verbal para fazer a “crônica” daquele período em Ouro Preto (então Vila Rica) assinalando o que ele considerava condenável, ou seja, os desacertos de conduta e administrativos de Cunha Menezes.

Na 11ª Carta há uma curiosa e precursora referência ao Carnaval (“Entrudo”, no texto), onde se descrevem batuques e danças na “casa aonde habita o grande chefe”, ou seja, a “orgia” no palácio de Cunha Menezes.

Segundo o poeta e ensaísta Affonso Ávila (1928/2012), pesquisador do Barroco mineiro, “o carnaval então como hoje, já constituiria a festa popular de sentido mais democrático, igualando ricos e pobres, humildes e poderosos”.

E mais: “O curioso governador Cunha Menezes, despindo-se dos foros de nobreza, alardeando o seu populismo, a sua ausência de preconceitos quase sempre mal interpretada pelo aristocrático poeta das ‘Cartas chilenas’, não deixava de aderir ao ritmo do Entrudo”.

“Precursor do atual samba” – ainda segundo Ávila – “o batuque começava a sua ascensão social, passando das senzalas aos salões, tendo ‘entrada/nas casas mais honestas e palácios’”.

Reproduz-se aqui um trecho das “Cartas chilenas” (na edição crítica do filólogo português Rodrigues Lapa) que mostra o carnaval na visão de Gonzaga – primeira referência literária em Minas Gerais a essa festa.

*****

Fingindo a moça que levanta a saia

e voando na ponta dos dedinhos,

prega no machacaz, de quem mais gosta,

a lasciva embigada, abrindo os braços.

Então o machacaz, mexendo a bunda,

pondo uma mão na testa, outra na ilharga,

ou dando alguns estalos com os dedos,

seguindo das violas o compasso,

lhe diz – “eu pago, eu pago” – e, de repente,

sobre a torpe michela atira o salto.

O dança venturosa! Tu entravas

nas humildes choupanas, onde as negras,

aonde as vis mulatas, apertando

por baixo do bandulho a larga cinta,

te honravam cos marotos e brejeiros,

batendo sobre o chão o pé descalço.

Agora já consegues ter entrada

nas casas mais honestas e palácios!

Ah! Tu, famoso chefe, dás exemplo.

Tu já, tu já batucas, escondido

debaixo dos teus tetos, com a moça

que furtou ao senhor o teu Ribério!

Tu também já batucas sobre a sala

da formosa comadre, quando o pede

a borracha função do santo Entrudo.

Comentários