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A dignidade de Lezama

12/02/2016 06:00:55
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Lezama na sua biblioteca-labirinto, em foto de Iván Cañas.
Lezama na sua biblioteca-labirinto, em foto de Iván Cañas.

Por Carlos Ávila

Ler o cubano Lezama Lima (1910/1976) é um desafio; tanto como poeta, quanto como ficcionista e ensaísta. “Un océano de formas, un caldo criollo en el que nadan todas las criaturas terrestres e marinas del lenguaje español, todas las hablas, todos los estilos” – assim definiu Octavio Paz a obra poética de Lezama; em geral, poemas longos e imagéticos, neobarrocos e órficos: versos entre o claro & o escuro (salvo engano nosso, não há ainda uma boa antologia de sua poesia em português; apenas algumas traduções aqui e ali).

Os ensaios de Lezama guardam as mesmas características de sua poesia, a mesma “imagética” está presente neles, há também certa oscuridad; não são de leitura fácil – sua escrita não faz concessões à clareza. Como observa Irlemar Chiampi (competente tradutora de “La expresión americana”, obra fundamental para o entendimento das artes na América Latina), “o pensamento lezamiano procede por elipses e figurações conceituais, por referências e citações oblíquas que vêm intrincadas como os fios de uma tapeçaria”.

Outra profunda conhecedora de Lezama, a poeta Josely Vianna Baptista traduziu para o português o seu romance “Paradiso” e uma seleção de ensaios com o belo título “A dignidade da poesia” (SP, Ed. Ática, 1996). É deste último livro que retiramos os fragmentos sobre poesia reproduzidos aqui; dignidade de um grande poeta-pensador, em oposição a tantas indignidades com as quais temos que conviver hoje.

*****

À impenetrabilidade do mundo exterior, a poesia aporta uma solução: sua substituição pela evocação, capacidade devolutiva do sujeito, depois que se perdeu o impossível diálogo com a natureza, depois que talhamos o olhar ou que tememos a linguagem tátil.

*****

A poesia não é coisa de extravagantes nem de acúrio impressionista, e sim de íntimo, entranhável centímetro taurobólico, de diluir o mármore e objetivo para que penetre por nossos poros, de dissolver nosso corpo para que chegue a ser forma.

*****

Goethe costumava dizer: “Trabalhando dentro dos limites é como se revela o mestre”.

*****

No poema a imagem mantém o fogo de proporções, e na poesia, a metáfora, não no sentido grego de desvelamento, mas no poético de obscuridade audível, adquire seu sentido de metamorfose que justifica seus fragmentos.

*****

Sigamos com um rascunho uma sentença rica de evidência de Pitágoras: “Existe um triplo verbo. Há a palavra simples, a palavra hieróglifa e a palavra simbólica. Ou seja, o verbo que expressa, o verbo que oculta e o verbo que significa.

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Imago – a mais profunda unidade conhecida entre o estelar e o telúrico.

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Lezama na sua biblioteca-labirinto, em foto de Iván Cañas.
Lezama na sua biblioteca-labirinto, em foto de Iván Cañas.

Por Carlos Ávila

Ler o cubano Lezama Lima (1910/1976) é um desafio; tanto como poeta, quanto como ficcionista e ensaísta. “Un océano de formas, un caldo criollo en el que nadan todas las criaturas terrestres e marinas del lenguaje español, todas las hablas, todos los estilos” – assim definiu Octavio Paz a obra poética de Lezama; em geral, poemas longos e imagéticos, neobarrocos e órficos: versos entre o claro & o escuro (salvo engano nosso, não há ainda uma boa antologia de sua poesia em português; apenas algumas traduções aqui e ali).

Os ensaios de Lezama guardam as mesmas características de sua poesia, a mesma “imagética” está presente neles, há também certa oscuridad; não são de leitura fácil – sua escrita não faz concessões à clareza. Como observa Irlemar Chiampi (competente tradutora de “La expresión americana”, obra fundamental para o entendimento das artes na América Latina), “o pensamento lezamiano procede por elipses e figurações conceituais, por referências e citações oblíquas que vêm intrincadas como os fios de uma tapeçaria”.

Outra profunda conhecedora de Lezama, a poeta Josely Vianna Baptista traduziu para o português o seu romance “Paradiso” e uma seleção de ensaios com o belo título “A dignidade da poesia” (SP, Ed. Ática, 1996). É deste último livro que retiramos os fragmentos sobre poesia reproduzidos aqui; dignidade de um grande poeta-pensador, em oposição a tantas indignidades com as quais temos que conviver hoje.

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À impenetrabilidade do mundo exterior, a poesia aporta uma solução: sua substituição pela evocação, capacidade devolutiva do sujeito, depois que se perdeu o impossível diálogo com a natureza, depois que talhamos o olhar ou que tememos a linguagem tátil.

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A poesia não é coisa de extravagantes nem de acúrio impressionista, e sim de íntimo, entranhável centímetro taurobólico, de diluir o mármore e objetivo para que penetre por nossos poros, de dissolver nosso corpo para que chegue a ser forma.

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Goethe costumava dizer: “Trabalhando dentro dos limites é como se revela o mestre”.

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No poema a imagem mantém o fogo de proporções, e na poesia, a metáfora, não no sentido grego de desvelamento, mas no poético de obscuridade audível, adquire seu sentido de metamorfose que justifica seus fragmentos.

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Sigamos com um rascunho uma sentença rica de evidência de Pitágoras: “Existe um triplo verbo. Há a palavra simples, a palavra hieróglifa e a palavra simbólica. Ou seja, o verbo que expressa, o verbo que oculta e o verbo que significa.

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Imago – a mais profunda unidade conhecida entre o estelar e o telúrico.

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