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Erudito & Popular

17/02/2016 07:00:45
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Por Carlos Ávila

Villa-Lobos: voltado para a educação musical do país.
Villa-Lobos: voltado para a educação musical do país.

O compositor Gilberto Mendes, falecido recentemente, pôs o dedo na ferida; fez uma observação precisa – numa entrevista à revista “Concerto”, em 1997 – a respeito do conhecimento musical no nosso meio intelectual.

Gilberto: “Se você perguntar a um intelectual brasileiro qual é o escritor ou cineasta mais importante, ele responderá Joyce, Kafka, Godard… Mas se perguntar sobre um músico, ele dirá Gilberto Gil ou Caetano Veloso. Para a intelectualidade brasileira eles são considerados compositores eruditos de vanguarda”.

Acrescento: se perguntarem por artistas plásticos importantes, esses mesmos intelectuais brasileiros falarão em Picasso, Miró, Mondrian ou Pollack – ou ainda em criadores contemporâneos conceituais ou que fazem instalações e arte multimídia.

Raramente algum desses intelectuais brasileiros consegue escapar do lugar comum (falar em nomes da MPB) e citar algum compositor erudito; às vezes, arriscam o nome de um Villa-Lobos ou de um minimalista algo pop, mais conhecido, tipo Philip Glass… Quando chegarão a citar (conhecer e ouvir mesmo!) um Scelsi, um Boulez, um Berio, um Xenakis ou o nosso Gilberto? Citar Cage não vale (trata-se de um músico-pensador que extrapolou sua área – alguns de seus escritos e ideias foram traduzidos e divulgados por aqui, embora continue pouquíssimo executado em concertos ou mesmo ouvido em gravações).

Nada contra a nossa MPB, pelo contrário, ela é muito forte e criativa – de Pixinguinha a Jobim, de Cartola a Caetano; além dos muitos instrumentistas (um Garoto ou um Baden, por ex.) e cantores excepcionais (um Orlando Silva ou um João Gilberto; uma Carmen Miranda ou uma Gal). Aliás, a nossa MPB é surpreendente, já proporcionou até o aparecimento de alguns trabalhos inclassificáveis, que somam o erudito ao popular (caso de um Arrigo Barnabé).

Numa outra entrevista, também para a revista “Concerto”, em 2002, Gilberto identificou uma espécie de “luta entre duas categorias” – erudita X popular (algo semelhante a uma “luta de classes”): “A música erudita vai ficando cada vez mais por baixo, desprestigiada, e a popular entrando no lugar, e sendo até aceita pela intelectualidade como a música ‘erudita’ do momento”.

Será que não é possível dar uma “colher de chá” aos nossos compositores eruditos (ou “clássicos”)? Mas não só ao grande Villa – o nosso músico mais expressivo e conhecido; também à geração de Gilberto e Willy Corrêa de Oliveira (ainda bastante desconhecida), chegando aos novíssimos, passando por um Livio Tragtenberg e um Florivaldo Menezes Filho, por ex. – ambos compositores importantes já na faixa dos 50 anos.

Com a palavra, os diretores de programação de rádios e TVs; também os diretores (e regentes) de orquestras, além dos responsáveis por espaços culturais e gravadoras. Faltam educação e cultura na “pátria edulcorada” (desde Villa não houve nenhum projeto governamental, sério e abrangente, voltado para a educação musical). Mas o que fazer se nem os ditos intelectuais do país conhecem essa música?

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Por Carlos Ávila

Villa-Lobos: voltado para a educação musical do país.
Villa-Lobos: voltado para a educação musical do país.

O compositor Gilberto Mendes, falecido recentemente, pôs o dedo na ferida; fez uma observação precisa – numa entrevista à revista “Concerto”, em 1997 – a respeito do conhecimento musical no nosso meio intelectual.

Gilberto: “Se você perguntar a um intelectual brasileiro qual é o escritor ou cineasta mais importante, ele responderá Joyce, Kafka, Godard… Mas se perguntar sobre um músico, ele dirá Gilberto Gil ou Caetano Veloso. Para a intelectualidade brasileira eles são considerados compositores eruditos de vanguarda”.

Acrescento: se perguntarem por artistas plásticos importantes, esses mesmos intelectuais brasileiros falarão em Picasso, Miró, Mondrian ou Pollack – ou ainda em criadores contemporâneos conceituais ou que fazem instalações e arte multimídia.

Raramente algum desses intelectuais brasileiros consegue escapar do lugar comum (falar em nomes da MPB) e citar algum compositor erudito; às vezes, arriscam o nome de um Villa-Lobos ou de um minimalista algo pop, mais conhecido, tipo Philip Glass… Quando chegarão a citar (conhecer e ouvir mesmo!) um Scelsi, um Boulez, um Berio, um Xenakis ou o nosso Gilberto? Citar Cage não vale (trata-se de um músico-pensador que extrapolou sua área – alguns de seus escritos e ideias foram traduzidos e divulgados por aqui, embora continue pouquíssimo executado em concertos ou mesmo ouvido em gravações).

Nada contra a nossa MPB, pelo contrário, ela é muito forte e criativa – de Pixinguinha a Jobim, de Cartola a Caetano; além dos muitos instrumentistas (um Garoto ou um Baden, por ex.) e cantores excepcionais (um Orlando Silva ou um João Gilberto; uma Carmen Miranda ou uma Gal). Aliás, a nossa MPB é surpreendente, já proporcionou até o aparecimento de alguns trabalhos inclassificáveis, que somam o erudito ao popular (caso de um Arrigo Barnabé).

Numa outra entrevista, também para a revista “Concerto”, em 2002, Gilberto identificou uma espécie de “luta entre duas categorias” – erudita X popular (algo semelhante a uma “luta de classes”): “A música erudita vai ficando cada vez mais por baixo, desprestigiada, e a popular entrando no lugar, e sendo até aceita pela intelectualidade como a música ‘erudita’ do momento”.

Será que não é possível dar uma “colher de chá” aos nossos compositores eruditos (ou “clássicos”)? Mas não só ao grande Villa – o nosso músico mais expressivo e conhecido; também à geração de Gilberto e Willy Corrêa de Oliveira (ainda bastante desconhecida), chegando aos novíssimos, passando por um Livio Tragtenberg e um Florivaldo Menezes Filho, por ex. – ambos compositores importantes já na faixa dos 50 anos.

Com a palavra, os diretores de programação de rádios e TVs; também os diretores (e regentes) de orquestras, além dos responsáveis por espaços culturais e gravadoras. Faltam educação e cultura na “pátria edulcorada” (desde Villa não houve nenhum projeto governamental, sério e abrangente, voltado para a educação musical). Mas o que fazer se nem os ditos intelectuais do país conhecem essa música?

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