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Entre a lira e a lei

19/02/2016 11:54:28
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Gonzaga: liras na prisão.

Por Carlos Ávila

Num pequeno volume intitulado “Como era Gonzaga?”, o escritor mineiro Eduardo Frieiro (1889/1982) – um erudito “amigo dos livros”, um humanista de índole anárquica – traçou um retrato do poeta inconfidente Tomás Antônio Gonzaga (1744/1810).

O livrinho de apenas 80 e poucas páginas, formato pequeno, integrava a “Coleção Cultural” formada por publicações da Secretaria da Educação de Minas Gerais, durante o governo de Milton Campos; editado em 1950, o ensaio de Frieiro foi o nº 2 da Coleção.

Segundo o poeta e tradutor Abgar Renault – que assina o prefácio – “Eduardo Frieiro, para satisfazer milhares de curiosos, deliberou estudar a figura física de Gonzaga: leu, releu, examinou, indagou, pesquisou e deu-nos, afinal, uma figura do poeta”.

Ilustra esta coluna a famosa gravura que mostra o poeta na prisão; impressa por Caillet em Paris – a partir do retrato imaginário (óleo s/ tela) feito, em 1843, pelo artista João Maximiano Mafra, no Rio de Janeiro – foi reproduzida em “Marília de Dirceu” (RJ, Irmãos Laemmert, 1845), de Gonzaga, e no livro de Frieiro.

Segue abaixo o trecho inicial do livro de Frieiro, sobre a estampa do poeta – “um árcade entre a lira e a lei”, segundo a crítica e pesquisadora Lúcia Helena.

*****

Gonzaga é representado no cárcere, sentado num poial, junto da enxerga de que pende um cobertor e tendo à frente a bilha de água e uma escudela. Está com a camisa de babados aberta no peito, veste calções que se estreitam abaixo dos joelhos e calça botas de cano alto. Um capote abriga-lhe as costas apoiadas ao vão da “masmorra imunda e feia”. Está com o pensamento longe. Pensa tristemente em Marília que espera tornar a ver breve, em Ouro Preto. Porque é impossível que não reconheçam a sua inocência. Tudo aquilo é um horrendo pesadelo, excessivamente prolongado e cruel. Passará como passam todos os pesadelos. Acaba de escrever as suas derradeiras liras na prisão. Pedira à paixão e à arte suprissem o que lhe restava da inspiração, destroçada pela desgraça. A sua mão esquerda pousa sobre umas laudas de papel no recosto do poial e a direita prende entre os dedos o pedúnculo arrancado a uma laranja que está a seu lado. Vê-se um pouco acima, metida na parede, a candeia de azeite, cuja fuligem lhe ministrava a tinta em que embebia o pedúnculo de laranja, para utilizá-lo como instrumento de escrever, tal como se lê na lira 1, Parte II, que o poeta dirigiu a Marília:

A fumaça, Marília, da candeia,

que a molhada parede ou suja ou pinta,

bem que tosca e feia,

agora me pode

ministrar a tinta.

Aos mais preparos o discurso apronta:

ele me diz que faça no pé de uma

má laranja ponta,

e dela me sirva

em lugar de pluma.

Este Gonzaga pintado de imaginação representa um moço alto e esbelto, com o mesmo perfil numismático de adolescente e a mesma expressão pensativa e melancólica de Lord Byron, retratado por R. Westall.

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Gonzaga: liras na prisão.

Por Carlos Ávila

Num pequeno volume intitulado “Como era Gonzaga?”, o escritor mineiro Eduardo Frieiro (1889/1982) – um erudito “amigo dos livros”, um humanista de índole anárquica – traçou um retrato do poeta inconfidente Tomás Antônio Gonzaga (1744/1810).

O livrinho de apenas 80 e poucas páginas, formato pequeno, integrava a “Coleção Cultural” formada por publicações da Secretaria da Educação de Minas Gerais, durante o governo de Milton Campos; editado em 1950, o ensaio de Frieiro foi o nº 2 da Coleção.

Segundo o poeta e tradutor Abgar Renault – que assina o prefácio – “Eduardo Frieiro, para satisfazer milhares de curiosos, deliberou estudar a figura física de Gonzaga: leu, releu, examinou, indagou, pesquisou e deu-nos, afinal, uma figura do poeta”.

Ilustra esta coluna a famosa gravura que mostra o poeta na prisão; impressa por Caillet em Paris – a partir do retrato imaginário (óleo s/ tela) feito, em 1843, pelo artista João Maximiano Mafra, no Rio de Janeiro – foi reproduzida em “Marília de Dirceu” (RJ, Irmãos Laemmert, 1845), de Gonzaga, e no livro de Frieiro.

Segue abaixo o trecho inicial do livro de Frieiro, sobre a estampa do poeta – “um árcade entre a lira e a lei”, segundo a crítica e pesquisadora Lúcia Helena.

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Gonzaga é representado no cárcere, sentado num poial, junto da enxerga de que pende um cobertor e tendo à frente a bilha de água e uma escudela. Está com a camisa de babados aberta no peito, veste calções que se estreitam abaixo dos joelhos e calça botas de cano alto. Um capote abriga-lhe as costas apoiadas ao vão da “masmorra imunda e feia”. Está com o pensamento longe. Pensa tristemente em Marília que espera tornar a ver breve, em Ouro Preto. Porque é impossível que não reconheçam a sua inocência. Tudo aquilo é um horrendo pesadelo, excessivamente prolongado e cruel. Passará como passam todos os pesadelos. Acaba de escrever as suas derradeiras liras na prisão. Pedira à paixão e à arte suprissem o que lhe restava da inspiração, destroçada pela desgraça. A sua mão esquerda pousa sobre umas laudas de papel no recosto do poial e a direita prende entre os dedos o pedúnculo arrancado a uma laranja que está a seu lado. Vê-se um pouco acima, metida na parede, a candeia de azeite, cuja fuligem lhe ministrava a tinta em que embebia o pedúnculo de laranja, para utilizá-lo como instrumento de escrever, tal como se lê na lira 1, Parte II, que o poeta dirigiu a Marília:

A fumaça, Marília, da candeia,

que a molhada parede ou suja ou pinta,

bem que tosca e feia,

agora me pode

ministrar a tinta.

Aos mais preparos o discurso apronta:

ele me diz que faça no pé de uma

má laranja ponta,

e dela me sirva

em lugar de pluma.

Este Gonzaga pintado de imaginação representa um moço alto e esbelto, com o mesmo perfil numismático de adolescente e a mesma expressão pensativa e melancólica de Lord Byron, retratado por R. Westall.

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