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Eládio canta & faz cantar

26/02/2016 06:00:13
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Berenice e Eládio: divulgando a música contemporânea.
Berenice e Eládio: divulgando a música contemporânea.

Por Carlos Ávila

“O canto é que faz cantar” – escreveu Fernando Pessoa. O músico (cantor e professor) Eládio Pérez-González – que acaba de completar 90 anos – é a prova viva do belo verso do poeta português. O canto é sua razão de viver; o que o mantém ativo e produtivo: “eu não conseguiria fazer outra coisa”.

Com voz de barítono e sabedoria poético-musical, Eládio foi e tem sido mestre de muitas gerações. Nascido em Assunção, no Paraguai, radicou-se no Brasil em 1947 – estudou e começou sua carreira em São Paulo, mas sua formação musical, vocal e teatral foi aprimorada nos EUA e na Europa, onde participou como solista de recitais e concertos com orquestras. Atuou intensamente na divulgação da música contemporânea, incluindo a brasileira e a latino-americana.

Eládio participa de atividades musicais em várias partes do país (mora no Rio), mas tem ligação e colaboração estreita, há anos, com a Fundação de Educação Artística – FEA, em BH, dirigida por Berenice Menegale (com quem, aliás, sempre atuou num duo de piano & voz); integra o corpo docente da instituição, onde já ministrou inúmeros cursos de formação vocal.

Sempre presente nos famosos Festivais de Inverno, em Ouro Preto, Eládio também contribuiu para preparação vocal do Ars Nova – o coral da UFMG. Recordo aqui sua inesquecível participação, num daqueles Festivais, na primeira audição da peça de Gilberto Mendes, “Motetos à feição de Lobo de Mesquita” (para barítono, cravo, oboé e violoncelo)– sobre poema de Affonso Ávila.

Presentes na ocasião, compositor e poeta se confraternizaram, irmanados pela voz grave e profunda de Eládio que, durante a execução da peça, cantofalava as estrofes reiterativas e fragmentadas (divididas em sete passos gráficos e três vozes) do poema inspirado na música barroca do mulato mineiro José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746/1805), nascido no Serro: “ribeirão do inferno/eirão do inferno/ão do inferno/inferno”.

Eladio deu aulas de canto para intérpretes famosas da MPB, como Elizeth Cardoso e Nara Leão; aqui em Minas, entre suas ex-alunas destacam-se diversas cantoras – eruditas e populares:Titane e Eliane Fajioli, por ex.

Recentemente homenageado pelos seus 90 anos com um recital na FEA – com a participação de artistas amigos, alunos e ex-alunos – Eládio assinalou com bom humor, em entrevista a um jornal de BH, que nunca fez distinção entre música erudita e popular: “Para mim existe música boa e música ruim. Prefiro ficar entre as boas”.

Com uma didática objetiva e prática, Eládio sempre enfatizou a importância do texto a ser cantado – as nuanças de som & palavra, valorizando também o conteúdo poético; publicou, inclusive, um livro sobre seu método – “Iniciação à técnica vocal”: “ensino as pessoas a cantar com a voz que elas têm, e não com a voz que gostariam de ter”, declarou em outra entrevista.

“Palavra cantada é palavra voando” – segundo James Joyce. O grande Eládio, seguramente, sempre trabalhou dentro dessa perspectiva, com o mesmo feeling em relação à palavra cantada – aliando técnica e sensibilidade.

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Berenice e Eládio: divulgando a música contemporânea.
Berenice e Eládio: divulgando a música contemporânea.

Por Carlos Ávila

“O canto é que faz cantar” – escreveu Fernando Pessoa. O músico (cantor e professor) Eládio Pérez-González – que acaba de completar 90 anos – é a prova viva do belo verso do poeta português. O canto é sua razão de viver; o que o mantém ativo e produtivo: “eu não conseguiria fazer outra coisa”.

Com voz de barítono e sabedoria poético-musical, Eládio foi e tem sido mestre de muitas gerações. Nascido em Assunção, no Paraguai, radicou-se no Brasil em 1947 – estudou e começou sua carreira em São Paulo, mas sua formação musical, vocal e teatral foi aprimorada nos EUA e na Europa, onde participou como solista de recitais e concertos com orquestras. Atuou intensamente na divulgação da música contemporânea, incluindo a brasileira e a latino-americana.

Eládio participa de atividades musicais em várias partes do país (mora no Rio), mas tem ligação e colaboração estreita, há anos, com a Fundação de Educação Artística – FEA, em BH, dirigida por Berenice Menegale (com quem, aliás, sempre atuou num duo de piano & voz); integra o corpo docente da instituição, onde já ministrou inúmeros cursos de formação vocal.

Sempre presente nos famosos Festivais de Inverno, em Ouro Preto, Eládio também contribuiu para preparação vocal do Ars Nova – o coral da UFMG. Recordo aqui sua inesquecível participação, num daqueles Festivais, na primeira audição da peça de Gilberto Mendes, “Motetos à feição de Lobo de Mesquita” (para barítono, cravo, oboé e violoncelo)– sobre poema de Affonso Ávila.

Presentes na ocasião, compositor e poeta se confraternizaram, irmanados pela voz grave e profunda de Eládio que, durante a execução da peça, cantofalava as estrofes reiterativas e fragmentadas (divididas em sete passos gráficos e três vozes) do poema inspirado na música barroca do mulato mineiro José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746/1805), nascido no Serro: “ribeirão do inferno/eirão do inferno/ão do inferno/inferno”.

Eladio deu aulas de canto para intérpretes famosas da MPB, como Elizeth Cardoso e Nara Leão; aqui em Minas, entre suas ex-alunas destacam-se diversas cantoras – eruditas e populares:Titane e Eliane Fajioli, por ex.

Recentemente homenageado pelos seus 90 anos com um recital na FEA – com a participação de artistas amigos, alunos e ex-alunos – Eládio assinalou com bom humor, em entrevista a um jornal de BH, que nunca fez distinção entre música erudita e popular: “Para mim existe música boa e música ruim. Prefiro ficar entre as boas”.

Com uma didática objetiva e prática, Eládio sempre enfatizou a importância do texto a ser cantado – as nuanças de som & palavra, valorizando também o conteúdo poético; publicou, inclusive, um livro sobre seu método – “Iniciação à técnica vocal”: “ensino as pessoas a cantar com a voz que elas têm, e não com a voz que gostariam de ter”, declarou em outra entrevista.

“Palavra cantada é palavra voando” – segundo James Joyce. O grande Eládio, seguramente, sempre trabalhou dentro dessa perspectiva, com o mesmo feeling em relação à palavra cantada – aliando técnica e sensibilidade.

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