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Mínimas memórias

06/04/2016 06:00:32

Federico Tozzi: narrativa fragmentária.
Federico Tozzi: narrativa fragmentária.

Por Carlos Ávila

Um escritor “feito mais de terra que de carne” – como o seu personagem em “Memórias de um empregado” –, o italiano Federico Tozzi (1883/1920), nascido em Siena, viveu pouco; vítima da gripe espanhola partiu com apenas 37 anos (isso depois de ser expulso do colégio; entrar e sair do Partido Socialista; perder a mãe; abandonar os estudos; curar-se de uma doença venérea que havia causado cegueira temporária; trabalhar em estação ferroviária; perder o pai; casar e mudar para Roma: ufa!).

“Memórias de um empregado” (“Ricordi di un impiegato”, no original) saiu postumamente, em 27; só agora sai no Brasil pela Ed. Carambaia, de SP, em fluente tradução de Maurício Santana Dias –  com belo projeto gráfico de Paula Astiz (capa desdobrável com a foto de uma locomotiva) e esclarecedor posfácio de Maria Betânia Amoroso (um outro romance de Tozzi foi publicado no Brasil, em 90: “Três cruzes”).

A obra de Tozzi – cerca de 10 livros – começou a ter reconhecimento de crítica e público a partir dos anos 60; foi aproximada de Pirandello e Italo Svevo pelo crítico italiano Giacomo Debenedetti (segundo este, “Tozzi, de certa forma, seria um primitivo do romance”).

Fragmentário e aforismático – “Memórias” mescla diário e correspondência, com marcas autobiográficas. Trata-se de um pequeno romance (nomeado assim “mais por força do hábito”, como observa Betânia) – pouco mais de 100 págs. na edição brasileira; o estilo e os capítulos breves lembram Xavier de Maistre e o nosso melhor Machado.

O (rarefeito) enredo –um jovem, pressionado pelo pai (que quer arrancá-lo “da embriaguez do ócio e da vagabundagem”), deixa a numerosa família em Florença e a namorada Attilia, e parte para outra cidade (Pontedera), onde vai trabalhar numa estação de trem; o desenredo – o próprio texto, lírico/ríspido, crivado de obsessões e digressões do personagem Leopoldo Gradi (uma espécie de alter-ego de Tozzi; aliás, um escritor algo “freudiano”).

A “pobre rosa de Attilia” – um signo na realidade deserta e solitária: “Você entre as páginas do livro que de quando em quando abro para revê-la, se esforça para conservar a cor que agora parece sangue coagulado”.

“A lua é lenta como o peso do meu cansaço. Sobe e torna a descer como uma caminhada inútil; como eu, que não tenho nada a dizer. Mas meus pensamentos ficaram todos pela estrada: à medida que me aproximava daqui, minha alma os perdia” – Gradi/Tozzi: um lacônico lunático?

“Oisive jeneusse/à tout asservi…” – Rimbaud e a ociosa juventude, vida (por delicadeza) perdida; “minha juventude como uma água em ebulição que é impossível sossegar!” – ainda Gradi/Tozzi perdido em si mesmo, na mesmice da estação (“onde tenho que ficar preso como um cachorro numa casinha de madeira”): uma estação no inferno?

E ainda vêm a doença; a morte e o nascimento; a volta do que não foi; uma Florença sem flor… A sombra segue o homem só: “Desses dois meses, me resta apenas a veladura de fastio e de tédio” – para o leitor resta não apenas a veladura da escritura de Tozzi: incômodo e inquietação também.

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