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Nó dado por ninguém

08/04/2016 06:00:54

Tolin: poeta belga ganha tradução no Brasil.
Tolin: poeta belga ganha tradução no Brasil.

Por Carlos Ávila

Pouco ou quase nada se sabe, no Brasil, sobre a produção poética atual em outros países. O que vem ocorrendo na poesia mexicana, por ex., ou ainda na poesia italiana (isso sem falar na poesia em nações africanas ou asiáticas – línguas e locais mais distantes). Às vezes, aqui e ali – em revistas (inclusive eletrônicas, como a “Sibila”), publicações acadêmicas, blogs ou sites – aparecem alguns textos traduzidos de poetas vivos, em atividade hoje nos seus países.

Em livro, é mais raro ainda o leitor brasileiro ter contato com aquelas poesias; às vezes surgem algumas iniciativas isoladas – como antologias – dando uma ideia dessa produção atual. Quando aparece algum volume de poeta estrangeiro vivo traduzido por aqui (mesmo por pequenas editoras e com tiragens reduzidas) é sempre estimulante e digno de nota.

Certos poetas-tradutores brasileiros vêm, já há algum tempo, procurando trazer para nossa língua seus pares contemporâneos no exterior. Prestam, com certeza, um bom serviço. Régis Bonvicino, por ex., fez um esforço nesse sentido, vertendo para o português os norte-americanos Michael Palmer, Charles Bernstein e Douglas Messerli; Júlio Castañon Guimarães tem traduzido poetas atuais de língua francesa: Jean-Pierre Lemaire, Antoine Emaz e, agora, o belga Serge Núñez Tolin.

Castañon publicou no ano passado, pela Lumme Editor, de SP, um pequeno volume – formato pocket book – com a tradução integral de “Noeud noué par personne” (“Nó dado por ninguém”) de Tolin; o poeta nasceu em 1961, em Bruxelas, onde vive, e é filho de pais espanhóis – já tem sete livros publicados.

O livro traduzido por Castañon traz poemas que se situam entre o verso e a prosa, em sequência direta e sem títulos; a impressão que se tem é que estamos diante de um único poema longo – montado a partir de fragmentos com algumas repetições de palavras e expressões (inclusive o próprio título do livro).

Os poemas, como observa o tradutor na sua nota final, “vão-se desenvolvendo em torno de algumas constantes, com, pouco a pouco, pequenas reformulações e a discreta introdução de novos elementos”. Trata-se de um continuum verso-prosa – unido pelo “nó” sintático-semântico da linguagem depurada, quase transparente de Tolin: poésie à traces; “poesia de pegadas que é preciso continuar” – espécie de escrita “infinita”, sem fim ou finalidade: “Dizer, até onde as palavras podem levar em direção ao que as excede, o que não está na sua ordem dizer./As palavras indefinidamente abertas: nó dado por ninguém, cujo limite se desvanece com o movimento de se fechar”.

Escrita-móbile – lacunar, espiral, vertiginosa – sempre em movimento: “Essas coisas em direção às quais vamos e que nos veem, sempre indo./Postos como hausto no ar, apagados tão logo imóveis./Conduzidos pela noite com as palavras atravessadas em nós no sonho que não se pode sonhar”.

Tolin segue no plano formal a linhagem do poema em prosa francês – que vai de Baudelaire/Rimbaud até Michaux, Saint John-Perse, Ponge etc. Abstrata, no plano conteudístico, sua poética transita entre som (“cette mélancolie du son”), solidão (“sève de la solitude”) e silêncio (“ce que maintenant j’entends par silence”) – “indeslindável nó” em que o poeta está preso.

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