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Adeus a Rogério Duarte

20/04/2016 06:00:08

Cartaz da mostra-homenagem a Rogério Duarte, na Austrália (2009).
Cartaz da mostra-homenagem a Rogério Duarte, na Austrália (2009).

Por Carlos Ávila

Não me lembro de quando li (ou ouvi) seu nome pela primeira vez. Lembranças mais antigas: a capa da primeira edição de “Metalinguagem”, de Haroldo de Campos, lançado pela Ed. Vozes (em 1967); ou ainda a estranha letra da canção “Anunciação”, com música de Caetano, gravada no LP “Tropicália”, do mesmo ano: “Maria, Maria/não pense que estou louco/nosso filho já nasceu/e se não tomarmos conhecimento/como iremos saber/que a nossa carne que nos mata…”.

Talvez a capa e o texto de contracapa do segundo LP de Gil (também 67), com foto do músico com fardão da Academia de Brasileira de Letras; Rogério “psicografou” Gil e citou/parodiou João Cabral (poema dedicado a Drummond, de “O engenheiro”): “Não há guarda-chuva contra o amor, contra os Beatles, contra os Mutantes…”. Frases finais: “O negro é a soma de todas as cores. A nudez é a soma de todas as roupas”.

Rogério (que sempre admirei, mas não conheci pessoalmente) nos deixou no último dia 13, aos 77 anos – estava internado num hospital em Brasília. Baiano de Ubaíra, nasceu em 39 – partiu para Salvador e, logo depois, para o Rio, no início dos anos 60; trabalhou com o designer pernambucano Aloísio Magalhães (fundador da Escola Superior de Desenho Industrial – ESDI); escreveu artigo pioneiro sobre o design no Brasil, na importante e marcante revista “Civilização Brasileira”.

Rogério criou o famoso cartaz do filme “Deus e o diabo na terra do sol”, de Glauber Rocha. Trabalhou também na Ed. Vozes e no CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE; depois se envolveu com o grupo tropicalista (foi um dos teóricos/mentores do movimento, ao lado de seu amigo Torquato Neto) – foi preso e torturado pela ditadura militar.

Depois de libertado, mergulhou fundo no desbunde – drogas e contracultura; fez o projeto do jornal udigrudi “Flor do Mal” (editado por Luiz Carlos Maciel) e participou das revistas “Navilouca” e “Polem”; passou por internações, mas continuou na sua “praia” profissional criando cartazes, capas de livros e discos, logomarcas etc. Também professor, recebeu o título de Notório Saber das universidades de Brasília e da Bahia; foi homenageado no “Melbourne International Arts Festival”, na Austrália (2009).

Toda a trajetória acidentada de Rogério culminou numa “abertura” mística. Acabou traduzindo o “Bhagavad Gita (Canção do Divino Mestre)” – capítulo do livro clássico indiano “Mahabhárata”, que remonta à época védica (cerca de 3000 a. C.). O volume saiu pela Companhia das Letras – acompanhado por um CD com vários trechos daquela obra musicados pelo próprio Rogério e por diversos músicos, seus parceiros.

Textos e entrevistas de Rogério foram reunidos em livros como “Tropicaos” e “Rogério Duarte” (Coleção Encontros), ambos da Azougue Editorial; suas criações visuais num charmoso minilivro – catálogo da mostra “Resgatando Rogério Caos” realizada pela Associação dos Designers Gráficos – ADG, em SP. Abaixo, um texto de Rogério (que saiu na revista “Polem”, editada por Duda Machado, RJ/1974); hommage ao múltiplo e inventivo artista baiano.

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Como é que é meu caro Ezra Pound? Vou acender um cigarro daqueles para ver se eu consigo lhe dizer isto. Andei fazendo um pouco de tudo aquilo que você aconselhou para desenvolver a capacidade de bem escrever. Estudei Homero, li o livro de Fenollosa sobre o ideograma chinês, tornei-me capaz de dedilhar um alaúde, todos os meus amigos agora são pessoas que têm o hábito de fazer boa música, pratiquei diversos exercícios de melopéia, fanopéia e logopéia, analisei criações de vários integrantes do seu paideuma.

Continuo, no entanto, a sentir a mesma dificuldade do início. Uma grande confusão na cabeça tão infinitamente grande confusão um vasto emaranhado de pensamentos misturados com as possíveis variantes que se completam antiteticamente.

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