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Poema desenterrado

22/04/2016 09:39:53

Gullar: polêmico e contraditório.
Gullar: polêmico e contraditório.

Por Carlos Ávila

Um dos dois mais polêmicos poetas de sua geração (o outro é, com certeza, Décio Pignatari), Ferreira Gullar foi do poema verbal ao poema-objeto/ambiente – ou seja, dos “Poemas portugueses” até a desintegração da linguagem, no final do seu livro “A luta corporal” (1954), chegando finalmente aos poemas visuais (“O formigueiro”, por ex.) e objetos.

Trata-se de uma trajetória radical, mas que não se sustentou por muito tempo. Com o golpe de 64, Gullar ingressou no Partidão e retrocedeu para uma poesia “de cordel”, participante, tentando maior comunicação – experiência falha e episódica na sua importante obra, como ele mesmo reconhece hoje. Mais adiante, voltou à poesia em verso, não metrificada e algo fragmentada, ressemantizada e referencial – com “ecos” de Drummond e Cabral (cujo ponto alto é o seu longo, mas desigual, “Poema sujo”).

Recente nota do “Globo” diz que Gullar completou 85 anos e será homenageado com uma mostra, em maio, na Galeria BNDES, no Rio, que incluirá a remontagem do seu “Poema enterrado”. Este é uma espécie de instalação avant la lettre (anterior à “Tropicália” – ambiente de Hélio Oiticica que, por sugestão do cineasta Luiz Carlos Barreto, deu nome à música e, depois, ao movimento dos músicos populares baianos em 67).

“Poema enterrado” parece ter sido o ápice da trajetória vanguardista de Gullar – líder teórico do neoconcretismo carioca; trata-se de um ambiente construído para fruição/curtição do leitor/espectador que entraria no poema com todo o corpo, segundo o “esquema do projeto” e o texto que o descreve – registrados na bela caixa-livro “Experiência neoconcreta”, da Cosac Naify (SP, 2007).

Gullar: “Consistia em uma sala de 2 x 2 (mais tarde alterei para 3 x 3 m), construída no subsolo. O leitor – se é que ainda podemos designá-lo por este nome – desceria por uma escada, abriria a porta do poema e entraria nele. Ao centro da sala, iluminada com luz fluorescente, encontraria um cubo vermelho de 50 cm de lado, que ergueria para encontrar, sob ele, um cubo verde de 30 cm de lado; sob este cubo, descobriria, ao erguê-lo, outro cubo, bem menor, de 10 cm de lado. Na face deste cubo que estaria voltada para o chão, ele leria, ao levantá-lo, a palavra rejuvenesça”.

Por sugestão de Oiticica, o “Poema enterrado” foi construído no quintal da casa onde ele morava com sua família, no Rio – num local destinado à caixa-d’água. Mas o projeto não deu certo: uma forte chuva inundou e destruiu o “Poema enterrado”, antes da sua inauguração – em 1959.

Bem, é esse poemambiente que será remontado agora, na exposição da Galeria BNDES: “terá três metros de altura e convidará o visitante a entrar numa instalação de madeira”, segundo a nota no jornal. Ou seja, o poema será “desenterrado”, resgatado da (contraditória) trajetória do poeta-crítico maranhense – cheia de altos e baixos.

Gullar teve seus lances de radicalismo estético e ideológico; curiosamente, com o passar do tempo, deu uma guinada conservadora: hoje é um dos mais ferrenhos críticos da produção artística contemporânea (instalações, performances etc.) e da “esquerda” há treze anos no poder; afora isso, entrou para a Academia Brasileira de Letras. São as voltas que o mundo dá.  Ferreira irregular.

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