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Franceses na Filarmônica

06/05/2016 06:59:19

Mechetti: musicalidade e precisão à frente da Filarmônica.
Mechetti: musicalidade e precisão à frente da Filarmônica.

Por Carlos Ávila

Debussy, Satie, Dutilleux – e ainda Bizet, “de brinde”, num concerto inesquecível. Foi o que se pode ver e ouvir na última sexta-feira (29/4), em BH. Tudo isso com a Filarmônica de Minas Gerais – hoje, sem dúvida, uma das três ou quatro melhores orquestras do país; e com um regente titular de alto nível: Fabio Mechetti – com marcante e intensa carreira internacional, desde 2008 à frente da Filarmônica.

O programa começou com o Satie (1866/1925) de “Parade”; grande prazer ouvir ao vivo essa peça, algo dadaísta, composta para um balé com argumento de Cocteau e cenários de Picasso – estrelado pelos Ballets Russes de Diaghilev, em Paris (1917). Cordas e metais misturados a sons de sirene, máquina de escrever, água caindo de um balde, percussão em garrafas de cerveja, tiros de revolver etc. – uma divertida miscelânea sonora (dez anos depois, em 27, surgiria o “Ballet mécanique” de Antheil).

Irônica e ritmada, a composição de Satie causou escândalo quando de sua estreia. Segundo J. Jota de Moraes, no seu “Música da modernidade”, Satie enviou um cartão postal aberto a um crítico que atacou o espetáculo: “Monsieur, vous êtes um cul. Mais um cul sans musique” (cul – bunda ou cu); o cartão valeu um processo contra Satie.

Na sequência ouviu-se a refinada e densa peça de Henri Dutilleux (1916/2013) – “Les ombres du temps” (“As sombras do tempo”) – “obra que explora uma gama infinita dos timbres orquestrais”, segundo Mechetti (no que parece seguir Debussy e Ravel). Dutilleux é um compositor pouco conhecido e executado por aqui; no ano passado, a Filarmônica executou a sua “Sinfonia nº 2 – Dupla”.

A composição de Dutilleux é sombria (o oposto de “Parade”) – referencia o tempo e a memória. Dividida em quatro movimentos, “Les ombres du temps” evoca as horas (na marcação de uma pulsação) e as sombras que ainda assombram (há até mesmo uma citação do diário de Anne Frank: “Por que nós? Por que a estrela?” – cantada por cinco vozes femininas). Não há uma “resolução” sonora final, antes, uma interrogação (“Dominante bleue?” é o título do último movimento).

Após o intervalo, uma “pausa” romântica: Bizet (1838/1875) – compositor da famosíssima ópera “Carmem” (inspirada na novela de Merimée), que viveu apenas 37 anos. A Filarmônica executou a sua “Sinfonia Nº 1 em dó maior”, de 1855, com todo o seu lirismo transbordante; o segundo movimento (Adagio) traz uma bela e melancólica melodia.

Finalmente, a Filarmônica retomou a modernidade com Debussy (1862/1918): “L’isle joyeuse” (“A ilha feliz”) – peça de 1904; dizem que foi inspirada num quadro de Antoine Watteau (“Peregrinação à ilha de Citera”); na verdade, parece que Debussy estava apenas curtindo sua musa Emma Bardac, na ilha de Jersey, onde ficou por uns tempos (segundo o texto do pianista Igor Reyner no programa). Os arabescos sonoros de Debussy estão sintetizados nos versos de Murilo Mendes: “A música que – consciente – planejou/era-lhe imposta qual estrela ou nuvem”; assim é nesta bela “L’isle joyeuse”.

Mechetti, à frente da Filarmônica de Minas, vem mesclando os grandes clássicos, como Mozart, aos criadores da modernidade (Schoenberg, Mahler, Stravinsky etc.); espera-se que esse importante trabalho continue.

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