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Poeta das situações-limite

11/05/2016 06:00:08

Régis Bonvicino: poeta/tradutor e editor da "Sibila".
Régis Bonvicino: poeta/tradutor e editor da “Sibila”.

Por Carlos Ávila

Régis, sua poesia – urbana e crítica – está reunida no volume “Até agora” (do final dos anos 1970 até 2006); longos anos de engajamento na causa poética. Agora, aos 60 anos, o que pensa dessa trajetória? Valeu a pena?

Não creio que exista uma poesia “rural” e, portanto, diria que minha poesia é um registro estético e antropológico das situações-limite em cidades, das situações agudas, distópicas. Meus poemas são composições. Eu busco concretude de linguagem, evito abstrações, frases sentenciosas ou vagas, evito a expansão da subjetividade. Prefiro a precisão e a descrição  objetiva à digressão. Prefiro a invenção à dedução. Sigo engajado talvez não mais na causa poética geral, como estive, mas em minha produção. Mas, para me desmentir, edito a Sibila, que teve 11 números impressos a partir de 2001, e que, a partir de 2007, passou a ser eletrônica. A Sibila tem cerca de 300.000 visitas por ano e publicou quase mil autores daqui e do mundo, numa operação cosmopolita, de deslocamento de certo tipo de poesia local. É uma publicação reflexiva. Fiz também muitas traduções reunidas ou não em livros. Escrevi bastante prosa crítica. Depois de Estado crítico, de 2013, já tenho um livro novo em andamento. E há um Selected poems que vai sair este ano nos EUA. A trajetória de um poeta é, na maioria das vezes, sofrida, dura – ou era, porque hoje tudo parece mais fácil para os mais novos. Eu estreei durante a ditadura militar, em 1975. Vivi tragédias pessoais. Testemunhei a transição para a democracia, em 1985. Testemunhei a queda do Muro de Berlim, a extinção da União Soviética, o fim da Guerra Fria e o ingresso do mundo em uma dicção mais difusa, mas igualmente letal, e por aí vai. Experimentei novas tragédias pessoais. Sigo de pé. E, apesar da miudeza do ambiente brasileiro, apesar das “milícias”, acho que escrever poesia e conhecer vários poetas interessantes valeu a pena.

No seu começo, a cena poética era bem diferente (pré-internet, inclusive). Como vê a cena atual? O que lhe chama a atenção?

Antes do aparecimento da internet, havia mais discussões estéticas e de macropolítica. De 15 anos para cá, sobretudo depois da afirmação das mídias sociais, os poetas debatem mais Direito (gênero, raça, política do dia-a-dia etc.) e, risos, moral e cívica, do que questões de literatura ou arte. A internet favoreceu a autopublicação sem qualquer rigor, ela acentuou o narcisismo, e não o espírito crítico. A literatura perdeu centralidade ao tornar-se banal, mimética, repetitiva, ao não cruzar com algum dado do real e seus conflitos, com singularidade. Esta última década e meia é retrô, reacionária. A cena de poesia não é sequer passível de descrição crítica ante o número exponencial de poetas e publicações, todos mais ou menos iguais, homogêneas e mornas. Eu não acompanho mais detidamente a produção, mas acho pelo que leio, aqui e ali, que predomina uma poesia genérica, de expansão da subjetividade, confessional – não se fala em inovação mais. A universidade é meio idiossincrática em seus debates poéticos, meio isolada, não produz uma crítica orgânica. Os jornais se tornaram veículos de divulgação de livros de grandes grupos editoriais. As mídias sociais se encaixam, no âmbito da literatura, na fórmula de  Marshall McLuhan: o meio é a mensagem, o meio é novo, e não a própria produção nele veiculada – diferentemente do ocorreu na esfera política. A autoridade hoje vem de arbitrários e discutíveis prêmios literários (movidos por ações entre amigos), mantidos por organizações poderosas, com fins comerciais,  e não mais do argumento crítico. É tudo muito obscuro, conservador e subalterno.  Há também outro eixo que pode estar liquidando a poesia: o dos eventos (mesmo aqueles que autodeclarem “educativos”), eventos quase sempre com dinheiro público – o caráter de festa e não de contraposição que eles estimulam, embora sempre com pouco público, com algumas exceções. Por fim, há a presença forte do Estado em poesia e em prosa, o que lhes mina a independência, e as instrumentaliza para fins eleitorais. Mas há certamente alguns poetas mais novos surgindo com força: são aqueles que evitam o arremedo do passado, a prosa margeada à esquerda,  e dialogam não apenas com os vivos, mas com a os momentos disruptivos da tradição. São aqueles mais independentes.

Vivemos hoje em “Estado crítico” (título de seu último livro de poemas) na sociedade e na poesia?

Respondo com um poema curto, “Desenlace”, de Estado crítico: Sob o viaduto/sala e quarto/o cara varre o lixo/da calçada para/debaixo do tapete/poeira, latas de cerveja/uma parede de papelão/a toalha de plástico/sobre a caixa/restos de comida no prato/inesperado,/um anu/empunha o garfo”.

Num poema mais antigo você escreveu que “o poeta é o que se esqueceu de viver”; no último livro radicalizou: “poesia é atraso de vida/é o maior desserviço/é masoquismo”. Fale sobre essa negatividade; poeta e poesia sobrevivem numa espécie de limbo?

O primeiro poema que menciona não me lembro dele. Mas sem experiência e vida não há poema ou há poema na biblioteca – o que não me atrai muito. O segundo poema que menciona se chama “Tortura” e retrata este momento atual da poesia, mais que outra coisa, da poesia como diálogo entre vivos, sem referência, sem a curiosidade da tradição e pique de invenção. Não gosto muito da ideia de “limbo”, mas da de discrição. E de espírito crítico.

Tem novos projetos (traduções, ensaios etc.)? Vai “insistir” na poesia?

Claro que vou “insistir” (risos) em poesia: ela me dá prazer e me faz pensar.

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