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Vozes & sons eletrônicos

13/05/2016 07:30:14

Cid: mistura de sons e vozes diversas.
Cid: mistura de sons e vozes diversas.

Por Carlos Ávila

Cid Campos – compositor e produtor – vem desenvolvendo um trabalho, desde os anos 1990, no seu MC2 STUDIO, em São Paulo, que une rock, música eletrônica e experimental, texto e voz. Sua produção tem duas vertentes: uma autoral, mais pop (de que é exemplo seu último CD, “Nem” – com 14 canções); e outra de resgate e releitura de textos poéticos, emoldurados por “colagens” sonoras que ele cria em estúdio (como no CD “Poesia é risco”, em parceria com Augusto de Campos).

Dessa última vertente faz parte também um CD mais recente de Cid reunindo criações suas para espetáculos de dança: “O inferno de Wall Street” (composta para o balé contemporâneo de Eliana Cavalcante, utilizando estrofes do poema épico “O Guesa” do maranhense Sousândrade, com leitura de Augusto) e “Profetas em movimento” (peça para um espetáculo multimidiático com coreografia de Soraia Silva, com “textos bíblico-apocalípticos” oralizados por José Mindlin, Décio Pignatari, Ricardo Araújo, Danilo Lôbo, Arnaldo Antunes, Walter Silveira, Augusto e Lauro Moreira).

Nos dois projetos, Cid criou uma “ambientação” sonora (e não melodias lineares/convencionais) a partir de recursos tecnológicos, como samplers e programação de bateria e percussão: “utilizei principalmente a guitarra-midi e o teclado para a execução dos outros instrumentos”; também “processos de colagem que remontam à linguagem da música concreta e eletrônica”.

A seção “Inferno de Wall Street” do longo poema de Sousândrade (1832/1902) – poeta da segunda geração do romantismo, recuperado pelos irmãos Campos – surpreende por sua modernidade e radicalidade; são estrofes-montagens que lembram, por ex., a técnica de elaboração dos “Cantos” de Pound. “Acho dessas coisas milagrosas na literatura brasileira” – observou João Cabral numa entrevista.

Satírico-crítico em relação à imagem-símbolo do capitalismo norte-americano, ou seja, a bolsa de valores de Nova York (= inferno), o poema sousandradino não é nada fácil de ler, com suas misturas de idiomas, palavras compostas e colagens variadas. No CD, Augusto lê as estrofes escolhidas com clareza e beleza, em meio às pontuações sonoras de Cid (referenciadas na música da modernidade: Charles Ives, Cage etc.).

Já “Profetas em movimento” com textos bíblicos relacionados ao conjunto escultórico do Aleijadinho, em Congonhas (MG) – “bíblia de pedra sabão/banhada no ouro das minas”, segundo Oswald –, traz leituras em tons (ou registros) variados, mixados “ao pulso percussivo da música pop”.

Foi utilizada a tradução da “Bíblia” das Ed. Paulinas (a melhor tradução do “livro sagrado”, embora não poética – segundo me afirmou, certa vez, Haroldo de Campos), realizada por uma equipe de exegetas. Mas, curiosamente, o destaque do CD é a reescritura/leitura provocativa de Pignatari dos textos dos profetas Jeremias e Baruc: “Como você está solitária, cidade de Sião Paulo, antes tão cheia de povo, agora viúva das cidades!”. Sião & São Paulo sobrepostas numa visão crítica.

O inventivo trabalho musical de Cid – unindo composição e computação, com base em fontes eruditas e populares – redimensiona palavra & som.

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