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Dadá – tudo ou nada

20/05/2016 07:11:17

Trio dadaísta: Arp, Tzara e Richter.
Trio dadaísta: Arp, Tzara e Richter.

Por Carlos Ávila

Do jeito que o mundo está – cada vez mais caótico/semiótico –, só mesmo reinaugurando o Dadá; o Cabaret Voltaire, berço do movimento em Zurique, já foi reaberto desde fevereiro. Este ano comemora-se o centenário do dadaísmo – lançado ali em 1916, em plena Primeira Guerra Mundial.

Segundo informação na imprensa, o velho e famoso Cabaret está promovendo 165 dias seguidos de festejos – com exposições, performances, oficinas etc. Enfim, toda a cidade suíça está envolvida em eventos, incluindo mostras nos museus com obras de Tristan Tzara (que foi líder do grupo), Hugo Ball, Hans Arp, Duchamp, Picabia, Man Ray etc. Ou seja, o movimento mais anárquico-vanguardista do século 20 está de volta – e cai como uma luva no cenário atual, entre grotesco e absurdo.

Dadá é arte? Antiarte?  As duas ao mesmo tempo? Ou tudo? Ou nada, como queria Tzara? Num livro sobre o movimento, Hans Richter (pintor, escritor e diretor de filmes experimentais abstratos) – ativo participante do dadaísmo –, assinala que “Dadá não significou um movimento artístico no sentido tradicional”; e mais: “em oposição a outros estilos, não possui características formais uniformes”.

O livro de Richter – “Dadá: arte e antiarte” (traduzido e lançado no Brasil nos anos 1990, pela Ed. Martins Fontes) – é fundamental para o conhecimento do importante movimento, assim como a “História do surrealismo” de Maurice Nadeau (SP, Ed. Perspectiva, 2008) é também fundamental para a compreensão das criações de Breton e seu grupo.

Dadá surgiu no rastro de outros movimentos (o século passado foi pródigo em propostas estéticas): futurismo italiano, expressionismo, cubismo e cubofuturismo russo. Mas Dadá não queria ser apenas mais um “ismo”; a ideia de Tzara era “criar uma palavra expressiva que, mediante sua magia, fechasse todas as portas à compreensão” (à revelia do poeta romeno-francês, a diacrônica história da arte também levou Dadá à condição de “ismo”).

O “espírito” criativo de Dadá espalhou-se, na época, por várias cidades, europeias ou não; Richter estuda as diversas fases do movimento a partir de Zurique e, na sequência, em Nova York, Berlim, Hannover, Colônia e, finalmente, Paris – para onde seguiu Tzara, alimentando ali o surgimento do surrealismo, depois de uma “troca de farpas” com Breton. Nadeau assinala que os dois homens representavam “dois estados de espírito diferentes, dois ‘sistemas’ que se tornarão opostos, dos quais um, historicamente, tinha necessidade do outro para nascer, mas que tinha não menos necessidade de abandonar para viver”.

Dadá era anárquico e libertário por essência; os surrealistas estiveram às voltas com o engajamento político, particularmente com o comunismo, numa relação tumultuada (mas Breton manteve um profícuo diálogo com Trotsky). Hoje se pode falar em pós-dadá ou neodadá – além de criação (artes visuais, poesia, música etc.), também pensamento e comportamento.

Em 2004, uma bela exposição no Instituto Tomie Oktake, em SP – “Sonhando de olhos abertos” – reuniu obras do Dadá e do surrealismo, pertencentes à preciosa coleção Vera e Arturo Schwartz do Museu de Israel, em Jerusalém (Arturo, nascido em 1924, é um historiador de arte, poeta e colecionador italiano); a mostra contou com um excelente catálogo, com muitas imagens e textos de Arturo – mais uma publicação de referência sobre Dadá.

Quando teremos outra mostra como essa por aqui? Curiosamente, segundo o “Globo”, apenas Goiânia receberá a exposição “Dadá itinerante” – fruto de parceria entre o Cabaret Voltaire e o coletivo de performances Grupo EmpreZa, daquela cidade. Já é alguma coisa. Seria bem-vinda também a reedição do livro de Richter (esgotado e fora de catálogo).

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