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Tudo está em movimento

27/07/2016 06:00:32

Eduardo: o pensamento crítico é um desafio.
Eduardo de Jesus: o pensamento crítico é um desafio.

Por Carlos Ávila

Eduardo de Jesus fala à coluna sobre arte contemporânea, TV, ambiente midiático e audiovisual. Mestre em Comunicação pela UFMG e doutor em Artes pela ECA/USP, Eduardo é também professor na pós-graduação da Fac. de Comunicação e Artes/PUC Minas. Foi curador nos eventos “Dense Local” (Festival Transitio-MX, México, 2009), “Esses espaços” (BH, 2010), Festival de Arte Contemporânea SESC/Videobrasil (SP, 2013) e FIF-Festival Internacional de Fotografia (BH, 2013 e 2015). Tem textos e ensaios publicados em diversas revistas e livros.

A cena da arte contemporânea é muito diversificada (e até confusa), no país e no exterior. Na sua visão, há uma espécie de vale-tudo estético, com muita produção descartável, ou essa quantidade é normal num mundo massificado, exigindo, portanto, um “filtro” de qualidade?

A arte tem se tornado um fenômeno massivo, com toda a complexidade que isso significa e essa é uma questão importante para pensadores contemporâneos, como Boris Groys. Trata-se de um redimensionamento do espetáculo de Guy Debord. Nós fomos além. A arte tem que se ver com esse contexto da visibilidade mediada. Não me preocupo com esse vale-tudo, estamos falando de obras produzidas na intensidade do tempo presente, os processos de midiatização da arte são intensos. Tudo pode se misturar e acabar se tornando uma coisa meio vazia, mas existem boas e importantes exceções.

O que pensa das incisivas e radicais críticas de Ferreira Gullar à arte atual (instalações, performances etc.)?

Acho uma pena as opiniões do Ferreira Gullar sobre arte contemporânea. Um poeta tão importante não consegue se despregar de categorias sedimentadas de construção, fruição e ativação de obras. A arte contemporânea opera em outros lugares e ativa outras sensibilidades. Como tal, exige novas formulações e abordagens. Tudo está em movimento. Gullar parou.

Em relação à Inhotim, Jorge Coli – crítico e prof. da Unicamp – afirmou que o local é bonito, tem obras de qualidade, mas lembra a Suíça, e isso lhe incomoda: “o recorte suntuoso numa geografia da pobreza – geografia que não é apenas local, mas que corresponde à situação da cultura no país”. Concorda com essa visão?

Eu gosto muito das obras expostas, do acervo, da curadoria, dos projetos e das formas de apresentação e montagem das obras no Inhotim, bem como do espaço exterior, jardins e tudo mais. Tem sido feito um trabalho importante por lá, com muitos bons profissionais envolvidos. Acho que a relação do Inhotim com seu entorno não corresponde à situação da cultura no país. Não li a entrevista, não sei exatamente em qual contexto Coli falou isso, mas creio que existem muitas outras coisas e muito mais complexas na cultura brasileira do que sugere a relação entre o “recorte suntuoso” e a “geografia da pobreza”.

A seu ver, a TV não vem se repetindo e se mediocrizando (com exceção de canais como o Curta e o Arte1, por ex., no Brasil)?  Ela estaria “em extinção” diante de novos meios e de um público cada vez mais segmentado?

A televisão é algo muito heterogêneo, que em sua enorme fragmentação pode trazer índices díspares de qualidade. Nesse contexto vejo a TV em um processo de mutação com a consolidação de novas plataformas (streaming e Youtube, por exemplo). A transmissão ao vivo, que era característica central da TV, hoje é expandida para outros meios. Está em curso uma reconfiguração do ambiente midiático e audiovisual, não apenas a TV.

Como vê a atual produção nas artes visuais. Que trabalhos (ou artistas) lhe interessam, particularmente?

Vejo com muita atenção a produção artística contemporânea, frequento as exposições e acompanho a trajetória de vários artistas que me interessam. Nos últimos anos venho estudando as questões ligadas aos espaços em suas diversas relações com a arte e as imagens em movimento, isso tem me levado a ficar mais próximo das obras de Dominique Gonzalez-Foerster, Christian Marclay, Paul Chan e Rivane Neuenschwander no ambiente das artes visuais e de Adirley Queiros e Carlos Nader no domínio do cinema documentário.

Falta mais pensamento crítico nas escolas de comunicação?

A construção de um pensamento crítico é um desafio, sempre. Na contemporaneidade torna-se ainda mais complexo ativarmos um pensamento crítico, quando experimentamos as sofisticadas formas de um capitalismo flexível. Acredito que nas escolas de comunicação, assim como em outras áreas, atravessamos um momento de transição, de mudança. Para dar novos sentidos ao saber, bem como nas suas formas de produção, vamos precisar reconstruir o pensamento crítico, sobretudo para nos afastarmos das funcionalidades e eficiências típicas de um produtivismo vazio que visa o lucro.

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