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O museu da memória

07/09/2016 06:00:03

Sant'Anna: criativo e anárquico.
Sant’Anna: criativo e anárquico.

Por Carlos Ávila

Sérgio Sant’Anna está entre os mais importantes prosadores brasileiros pós-Rosa & Clarice (Rubem Fonseca, Raduan Nassar e mais alguns outros); tem obras traduzidas para várias línguas e adaptadas para o cinema. Carioca-mineiro (“sofro de ambiguidade estadual”, me disse certa vez), Sant’Anna começou a publicar por aqui, quando morava em BH, ainda nos anos 1960/70, nas páginas do Suplemento Literário/MG.

Criativo e anárquico, com grande força verbo-vivencial, Sant’Anna vem construindo uma obra inquieta, que não se acomoda aos padrões mediano-convencionais dos meros “contadores de história”. Ele narra, sim; mas seus textos – seja a ficção breve ou o romance – evidenciam sempre sua preocupação com a linguagem e com a estrutura, seu ímpeto experimental (embora hesite aqui e ali em radicalizar mais). É sempre melhor na forma curta. A gasta palavra conto não dá conta de definir sua provocativa escritura – embora ele próprio ainda insista em utilizá-la.

No seu último livro – “O conto zero e outras histórias” (recém-lançado pela Companhia das Letras) – Sant’Anna, 75 anos, entra no túnel do tempo e apresenta dez narrativas; produz uma espécie de ficção-memória, misturando e recriando suas vivências e experiências pessoais. Parece não acreditar, como Borges (citado por ele no livro), “na divisão entre vida real e vida imaginária”.

O núcleo central do volume é, com certeza, o fragmentário “Vibrações”, no qual rememora sua residência artística no International Writing Program, em Iowa, nos EUA, em 1970/71. Numa entrevista recente, Sant’Anna declarou que essa foi a melhor época de sua vida; contato e intercâmbio com escritores e artistas de várias partes do mundo, ali reunidos. Era o conturbado período da contracultura nos States – experimentalismos estéticos (Living Theatre, rock etc.) e comportamentais; muito álcool (até apelidaram o evento de International Drinking Program!) e drogas; protestos contra a guerra do Vietnã… Tudo isso marcou profundamente Sant’Anna; ele escreve em busca desse tempo “perdido”.

Além de “Vibrações”, há outros textos de “temperatura” elevada no livro de Sant’Anna, por ex. “Flores brancas” sobre uma turbulenta relação afetiva, com lances de crueldade e agressividade; “O conto” – com seu início metalinguístico (“Quantas vezes quis escrever o conto? O conto que me redimiria de tantos outros, talvez até me redimisse de escrever, esta interminável busca e insatisfação.”) e, na sequência, uma narrativa de observação obsessiva; “Papeizinhos rasgados” – um quase poema em prosa; “A bruxa” – no qual o incômodo inseto irrompe no apartamento e traz à lembrança outra “bruxa”: Clarice Lispector, que Sant’Anna conheceu pessoalmente e que nunca mais saiu de sua cabeça, “como objeto do amor e até desejo”; e ainda “O museu da memória” – uma espécie de “museu de tudo” vivido por Sant’Anna (lembrando aqui o título do livro de João Cabral), um fluxo de imagens/lembranças que guarda alguma relação com um texto seu mais antigo (“Uma visita, domingo à tarde, ao museu”).

Em “Conto zero e outras histórias” Sérgio Sant’Anna faz do passado presente, através de uma linguagem cortante – única em nossa ficção atual.

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