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Rápido & rasteiro

21/09/2016 06:00:17

Por Carlos Ávila

"Victory Boogie-Woogie": último quadro de Mondrian (1942/44).
“Victory Boogie-Woogie”: último quadro de Mondrian (1942/44).

Geometria sensível

Quem ainda não viu, deve ir correndo ver a exposição “Mondrian e o movimento De Stijl” – no Centro Cultural Banco do Brasil/BH (em exibição até o próximo dia 26/9; a mostra já passou por SP e Brasília, na sequência, deve seguir para o Rio). Incluindo diversos quadros do grande construtivista holandês (desde os iniciais figurativos até os geométricos), a expô traz ainda toda uma produção de design e arquitetura relacionada à Mondrian (1872/1944) – desenvolvida pelo De Stijl (fundado em 1917, inicialmente como uma revista, pelo poeta/artista/crítico Theo van Doesburg). Entre o material exposto estão a famosíssima Red Blue Chair (conhecida popularmente como cadeira Rietveld) – em algumas “versões” –, e cartazes, filmes/animação, maquetes, objetos utilitários etc.

Mondrian está no centro da moderna arte abstrato-geométrica do séc. 20, com repercussão e influência, no Brasil, no concretismo e, depois, no neoconcretismo. Segundo Meyer Schapiro (em “Mondrian – a dimensão humana da pintura abstrata”, um livro obrigatório para os interessados no artista holandês), “enquanto as pinturas abstratas de Mondrian dos anos 20 e 30 têm um efeito arquitetônico de grande força e estabilidade, a surpresa de Broadway Boogie-Woogie reside precisamente na sua movimentação e música visual”. Vale a pena ver & rever o jogo de formas/cores de Mondrian no CCBB (que já apresentou antes as “invenções” de Kandinski).

Sem concerto (e sem conserto?)

Meus amigos, meus inimigos – salvemos a Orquestra Sinfônica Brasileira! Leio estupefato (em matéria de Eduardo Fradkin, no “Globo”) que a OSB está quase falida, com um “rombo” de R$ 15,5 milhões em suas contas. A entrevista de Eleazar de Carvalho Filho (economista e presidente da Fundação-OSB; filho do grande regente Eleazar de Carvalho) a Fradkin assusta; o grupo musical já cancelou até o resto da temporada deste ano!

Complementa a matéria uma carta aberta do Conselho Curador da Fundação-OSB falando no risco que corre a orquestra – verdadeiro patrimônio sonoro nacional: “A ausência de investimento dos setores público e privado poderá causar o desaparecimento de um dos maiores ícones da cultura nacional e carioca. Um conjunto único que, há mais de sete décadas, representa a diversidade cultural brasileira e atua ativamente na educação desta sociedade”. O recurso que a OSB necessita não é nada diante da dinheirama desviada da Petrobrás. Mas neste país destruído pelos políticos-saúvas… Who cares? Ou o Brasil acaba com essas saúvas ou elas acabam com o Brasil – como já dizia Mário de Andrade, no seu “Macunaíma”. Salvemos a OSB! (espera-se que as coisas não cheguem a esse ponto aqui na Filarmônica de Minas – e nas demais orquestras do país).

Versos dos ventos uivantes

Todos conhecem Emily Brontë (1818/1848) como a autora de “Morro dos ventos uivantes”, seu mais famoso romance (filmado por William Wyler, em 1939, com Laurence Olivier no elenco). Mas a britânica Emily era também poeta; seus versos lírico-românticos foram traduzidos no Brasil por Lúcio Cardoso (o romancista de “Crônica da casa assassinada”) – publicados em 1944, pela Ed. José Olympio, na sua sofisticada Coleção Rubáiyát.

É essa tradução, com 33 poemas, que sai agora reeditada pela Ed. Civilização Brasileira: “O vento da noite”. Os poemas de Emily não são sintéticos e condensados como os da sua xará norte-americana Dickinson; são mais extensos e discursivos. A “tradução livre” de Lúcio (sem métrica e rima) acentua mais esses aspectos – é uma espécie de paráfrase, com raros “achados”. Defini-la como “transcriação” – como faz o introdutor Ésio Macedo Ribeiro (aliás, em contradição com a orelha de Denise Bottmann) – é forçar a barra. A boa edição vale pela “revelação” da poética brontiana.

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