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Chiclete com banana

28/09/2016 06:00:02

Jackson do Pandeiro: misturando bebop com samba.
Jackson do Pandeiro: misturando bebop com samba.

Por Carlos Ávila

“Eu só boto bebop no meu samba/quando o Tio Sam tocar um tamborim/ quando ele pegar no pandeiro e no zabumba/quando ele aprender que o samba não é rumba…” – Jackson do Pandeiro está de volta! Leio nos jornais que estão lançando uma caixa com nove CDs do paraibano, recuperando seus antigos (e raríssimos) 78 rotações & LPs. Uma grande mostra sonora do inigualável Jackson (1919/1982).

Sempre que se fala em música popular brasileira logo são apontadas suas raízes: o choro e o samba – sim, ambos são importantíssimos. Mas os ritmos nordestinos também estão na formação de nossa música. Certa vez, numa entrevista, Paulinho da Viola assinalou as duas composições mais emblemáticas, a seu ver, da MPB: “Carinhoso” – o samba-choro de Pixinguinha (que ganhou letra de João de Barro) – e “Asa Branca” – a toada-baião de Luiz Gonzaga, com letra de Humberto Teixeira.

Gonzaga trouxe o baião para o sul nos anos 1940, mais precisamente para o Rio, então capital do país, divulgando e “amplificando” o ritmo nordestino – via Rádio Nacional e 78s gravados na antiga RCA Victor. Jackson veio na sua esteira, mais como intérprete do que compositor; segundo Rodrigo Faour, organizador da caixa, “ele foi o maior continuador de Gonzaga”.

“A ema gemeu/no tronco do juremá…/ Foi um sinal bem triste, morena/fiquei a imaginar/será que o nosso amor, morena/que vai se acabar?” – Jackson com sua voz e balanço inconfundíveis apresentou algumas “derivações” do baião: o rojão, o batuque, o coco, o xote, o xaxado (e ainda nordestinizou o samba em “Chiclete com banana”, composição de Gordurinha e Almira Castilho – esposa e parceira de palco de Jackson). Os versos citados acima são de “O canto da ema”, música de João do Vale, em parceria com Aires Viana e Alventino Cavalcante – um dos sucessos de Jackson.

Outra gravação marcante de Jackson foi “Sebastiana”, composição de Rosil Cavalcanti (autor também de “Cabo Tenório” e “Coco social”, entre outras músicas registradas em disco pelo paraibano): “Convidei a comadre Sebastiana/pra cantar e xaxar na Paraíba/ela veio com uma dança diferente/e pulava que só uma guariba.//E gritava a, e, i, o, u, ipsilone…”.

Mencionar “Sebastiana” é também se lembrar da ótima (e eletrificada) gravação dessa canção por Gal Costa, no seu primeiro disco tropicalista. Aliás, ela e Gilberto Gil regravaram algumas músicas do repertório de Jackson, chamando atenção para a sua importância. A rítmica de Jackson influenciou, com certeza, Gil e, mais adiante, Zé Ramalho e Alceu Valença; hoje está presente no trabalho de Lenine.

Jackson tinha um swing único – nele, voz & pandeiro eram uma coisa só (como voz & violão no baiano João Gilberto que, não à toa, faz um “aceno” ao baião na sua “Bim bom” – talvez para o incômodo do crítico/biógrafo Rui Castro que, no seu livro sobre a bossa-nova, fala em “sanfona cafona de Luiz Gonzaga”; puro preconceito…).

Além da bem-vinda caixa com os CDs de Jackson, o artista nordestino é também tema de um documentário de Marcus Vilar e Cacá Teixeira – “Jackson – na batida do pandeiro”, a ser lançado ainda este ano. Se Gonzaga foi o rei do baião, o rei do ritmo foi mesmo Jackson, com seu pandeiro infernal.

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