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Fora de foco, dentro do fogo

05/10/2016 06:00:31
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Capa, em 1936, registrando a Guerra Civil Espanhola.
Capa, em 1936, registrando a Guerra Civil Espanhola.

Por Carlos Ávila

“Enquanto me barbeava, tive uma conversa comigo mesmo sobre a incompatibilidade de ser repórter e ter uma alma sensível ao mesmo tempo” – observa, com precisão, Robert Capa (1913/1954), no seu livro de memórias da Segunda Guerra Mundial: “Ligeiramente fora de foco” (já traduzido e editado no Brasil).

Fotógrafo-repórter, Capa cobriu cinco guerras, registrando de perto a violência e o sofrimento: a Guerra Civil Espanhola (1936/39), a invasão japonesa na China (no ano de1938), a Segunda Guerra Mundial no norte da África e na Europa (de 1941 a 45), a primeira guerra árabe-israelense (1948) e, finalmente, a guerra na Indochina francesa (1954) – onde pisou numa mina terrestre e morreu.

A Caixa Cultural em São Paulo apresentou, recentemente, uma exposição com imagens inéditas de Capa, feitas na Guerra Espanhola (o conflito está completando 80 anos); na mostra havia também fotos de David Seymour e de Gerda Taro (a companheira de Capa que foi esmagada por um tanque, quando cobria uma batalha a oeste de Madrid – apaixonado por Gerda, o fotógrafo ia se casar com ela e nunca se recuperou completamente dessa tragédia). As fotos da exposição foram selecionadas entre cerca de 4.500 negativos que estavam desaparecidos e foram redescobertos no México.

Falar de Capa é se lembrar de suas imagens impactantes e tocantes (espalhadas por diversas publicações, livros e museus); de seu livro-depoimento sobre a 2ª Guerra – prosa simples e direta – onde relata as adversidades para realizar seu trabalho fotográfico e as situações perigosas e chocantes que enfrentou: “Nem sempre é fácil ficar de lado e não poder fazer nada além de registrar o sofrimento à sua volta”.

Capa criou, espontaneamente, uma estética (ou antiestética) da foto de guerra – somando coragem e sensibilidade, improviso e criatividade: “Se suas fotos ainda não estão boas o suficiente, é porque você ainda não está perto o suficiente” – dizia aconselhando os companheiros de profissão. Muitas vezes, para Capa, a questão não era “de foco”, mas de percepção: o que deveria ser imediatamente captado pela câmera (remember sua famosa foto do soldado espanhol sendo atingido por um tiro, largando sua arma e morrendo de braços abertos).

A edição brasileira de “Ligeiramente fora de foco” (SP, Cosac Naify, 2010) é recheada de imagens feitas por Capa – inclusive as históricas fotos do Dia D, em 44, na Normandia (norte da França): algo desfocadas; registradas no desembarque na praia, em meio ao tiroteio das baterias de defesa alemãs. Vertigem visual.

Antes, em outubro de 43, Capa fotografou o enterro de vinte adolescentes do Liceo Sannazaro, no distrito de Vómero, na Itália (um pobre e improvisado caixão de madeira, sendo carregado; o choro e o desespero das mães); ali, sob o comando de um professor da escola, os jovens enfrentaram os alemães durante quatro dias.

Capa: “Tirei o chapéu e peguei minha câmara. Apontei a lente para o rosto das mulheres prostradas, que carregavam pequenas fotos de seus filhos mortos, até os caixões serem finalmente levados embora. Aquelas eram as minhas fotos de vitória mais verdadeiras, as que tirei naquele simples funeral numa escola”.

Segundo Cornell Capa (irmão do fotógrafo e que também foi fotojornalista), “Capa assumiu o encargo de registrar o inferno que o homem criou para si próprio: a guerra”. Fotos-verdade. Cruas e duras.

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Capa, em 1936, registrando a Guerra Civil Espanhola.
Capa, em 1936, registrando a Guerra Civil Espanhola.

Por Carlos Ávila

“Enquanto me barbeava, tive uma conversa comigo mesmo sobre a incompatibilidade de ser repórter e ter uma alma sensível ao mesmo tempo” – observa, com precisão, Robert Capa (1913/1954), no seu livro de memórias da Segunda Guerra Mundial: “Ligeiramente fora de foco” (já traduzido e editado no Brasil).

Fotógrafo-repórter, Capa cobriu cinco guerras, registrando de perto a violência e o sofrimento: a Guerra Civil Espanhola (1936/39), a invasão japonesa na China (no ano de1938), a Segunda Guerra Mundial no norte da África e na Europa (de 1941 a 45), a primeira guerra árabe-israelense (1948) e, finalmente, a guerra na Indochina francesa (1954) – onde pisou numa mina terrestre e morreu.

A Caixa Cultural em São Paulo apresentou, recentemente, uma exposição com imagens inéditas de Capa, feitas na Guerra Espanhola (o conflito está completando 80 anos); na mostra havia também fotos de David Seymour e de Gerda Taro (a companheira de Capa que foi esmagada por um tanque, quando cobria uma batalha a oeste de Madrid – apaixonado por Gerda, o fotógrafo ia se casar com ela e nunca se recuperou completamente dessa tragédia). As fotos da exposição foram selecionadas entre cerca de 4.500 negativos que estavam desaparecidos e foram redescobertos no México.

Falar de Capa é se lembrar de suas imagens impactantes e tocantes (espalhadas por diversas publicações, livros e museus); de seu livro-depoimento sobre a 2ª Guerra – prosa simples e direta – onde relata as adversidades para realizar seu trabalho fotográfico e as situações perigosas e chocantes que enfrentou: “Nem sempre é fácil ficar de lado e não poder fazer nada além de registrar o sofrimento à sua volta”.

Capa criou, espontaneamente, uma estética (ou antiestética) da foto de guerra – somando coragem e sensibilidade, improviso e criatividade: “Se suas fotos ainda não estão boas o suficiente, é porque você ainda não está perto o suficiente” – dizia aconselhando os companheiros de profissão. Muitas vezes, para Capa, a questão não era “de foco”, mas de percepção: o que deveria ser imediatamente captado pela câmera (remember sua famosa foto do soldado espanhol sendo atingido por um tiro, largando sua arma e morrendo de braços abertos).

A edição brasileira de “Ligeiramente fora de foco” (SP, Cosac Naify, 2010) é recheada de imagens feitas por Capa – inclusive as históricas fotos do Dia D, em 44, na Normandia (norte da França): algo desfocadas; registradas no desembarque na praia, em meio ao tiroteio das baterias de defesa alemãs. Vertigem visual.

Antes, em outubro de 43, Capa fotografou o enterro de vinte adolescentes do Liceo Sannazaro, no distrito de Vómero, na Itália (um pobre e improvisado caixão de madeira, sendo carregado; o choro e o desespero das mães); ali, sob o comando de um professor da escola, os jovens enfrentaram os alemães durante quatro dias.

Capa: “Tirei o chapéu e peguei minha câmara. Apontei a lente para o rosto das mulheres prostradas, que carregavam pequenas fotos de seus filhos mortos, até os caixões serem finalmente levados embora. Aquelas eram as minhas fotos de vitória mais verdadeiras, as que tirei naquele simples funeral numa escola”.

Segundo Cornell Capa (irmão do fotógrafo e que também foi fotojornalista), “Capa assumiu o encargo de registrar o inferno que o homem criou para si próprio: a guerra”. Fotos-verdade. Cruas e duras.

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