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Uma Rothschild no jazz

19/10/2016 06:00:05
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Nica e Monk: amor ao jazz em Nova York.
Nica e Monk: amor ao jazz em Nova York.

Por Carlos Ávila

Ela trocou a aristocracia europeia – a família judia e milionária Rothschild (“de commodities à arbitragem, de minas ao comércio, o alcance dos Rothschild ia da África do Sul a Burma, de Montana ao Cáucaso, e além”), um casamento “nobre”, cinco filhos e um castelo – pela jazzocracia negra norte-americana, em Nova York; isso depois de ouvir “Round Midnight” com Thelonious Monk.

A britânica Kathleen Annie Pannonica (1913/1988) – que ficou conhecida como Nica, “a baronesa do jazz” – foi uma mulher diferente e aventureira. Embora nascida em berço de ouro, foi uma rebelde (bem, até onde uma Rothschild pode ser rebelde); desde pequena carregava o desejo de fuga (da cansativa rotina aristocrática) e de luta (fazer o que lhe desse na telha, sem ter de dar satisfações a ninguém).

A interessante e intrigante história de Nica foi pesquisada e relatada por sua sobrinha-neta, a diretora de cinema e escritora Hannah Rothschild, no volume “The baroness” (recém-lançado em tradução com o título “A baronesa do jazz”, pela Ed. Objetiva). Com texto fluente – capítulos breves, mas intensos, recheados de informações (há até uma “árvore genealógica seletiva” dos Rothschilds!) –, e algumas fotos, o livro é revelador.

O gosto musical de Nica veio do pai, que ouvia em casa de Stravinsky a Scott Joplin (ela nasceu no ano da estreia, em Paris, da “Sagração da primavera” – ou seja, sob o signo da renovação sonora). Aventura musical/aventura vivencial. Depois de se casar com o Barão Jules de Koenigswarter (1904/95) – um francês com sobrenome alemão, pai de seus filhos –, e de viver num castelo na França, com todo luxo, Nica se juntou à Resistência Francesa, na 2ª Guerra Mundial (Jules já estava no exército): lutou no norte da África, na Itália e, finalmente, em solo francês (dizem até que pilotou bombardeiros…). Segundo Hannah, a guerra operou uma mudança total em Nica: “aos 32 anos estava livre e havia vislumbrado outra maneira de viver”.

O jazz – “trilha sonora de sua vida” – levou Nica a se radicar em Nova York. Separada (inclusive dos filhos) e vivendo de rendas, “perseguiu” Monk até encontrá-lo e tornar-se sua grande amiga (alguns dizem que também amante); se enturmou com todo o grupo de jazzistas da época, frequentando os clubes noturnos, gravações e todo tipo de jazz sessions. Excêntrica, a baronesa viveu numa mansão rodeada por centenas de gatos.

Nica foi uma espécie de mecenas e “anjo da guarda” de vários músicos, como Charlie Bird Parker (barra pesada nas drogas e no álcool, como Monk e muitos outros também) que morreu no seu apartamento. “Para os que buscavam uma nova vida” – observa Hannah – “a Nova York pós-guerra era o cadinho da inovação e da criatividade, um local que concentrava imensa energia”: Nica conviveu ali com beats, expressionistas abstratos e com os então novos escritores norte-americanos Saul Bellow e Norman Mailer.

Certa vez, Nica chegou a ir para a cadeia, por porte de drogas, no lugar de Monk, “que nunca conseguia resistir a uma carreira de cocaína com uísque puro” – segundo seu amigo e músico Paul Jeffrey. A presença da “baronesa” foi tão expressiva no mundo do jazz que ela até virou personagem do conto “El perseguidor” de Cortázar, inspirado em Parker (no texto é identificada como Tica, “uma marquesa bastante esquisita”; há uma boa tradução do conto realizada pelo poeta Sebastião Uchoa Leite que saiu pela Cosac Naify em 2012).

Bonita, atraente e atrevida, Nica fez a diferença. Foi homenageada em vinte peças musicais jazzísticas – entre elas, “Pannonnica”, de Monk. Aliás, esse era o nome científico de uma borboleta. Sim, Nica foi uma borboleteante amante do jazz – vivendo nas asas do som e do sonho.

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Nica e Monk: amor ao jazz em Nova York.
Nica e Monk: amor ao jazz em Nova York.

Por Carlos Ávila

Ela trocou a aristocracia europeia – a família judia e milionária Rothschild (“de commodities à arbitragem, de minas ao comércio, o alcance dos Rothschild ia da África do Sul a Burma, de Montana ao Cáucaso, e além”), um casamento “nobre”, cinco filhos e um castelo – pela jazzocracia negra norte-americana, em Nova York; isso depois de ouvir “Round Midnight” com Thelonious Monk.

A britânica Kathleen Annie Pannonica (1913/1988) – que ficou conhecida como Nica, “a baronesa do jazz” – foi uma mulher diferente e aventureira. Embora nascida em berço de ouro, foi uma rebelde (bem, até onde uma Rothschild pode ser rebelde); desde pequena carregava o desejo de fuga (da cansativa rotina aristocrática) e de luta (fazer o que lhe desse na telha, sem ter de dar satisfações a ninguém).

A interessante e intrigante história de Nica foi pesquisada e relatada por sua sobrinha-neta, a diretora de cinema e escritora Hannah Rothschild, no volume “The baroness” (recém-lançado em tradução com o título “A baronesa do jazz”, pela Ed. Objetiva). Com texto fluente – capítulos breves, mas intensos, recheados de informações (há até uma “árvore genealógica seletiva” dos Rothschilds!) –, e algumas fotos, o livro é revelador.

O gosto musical de Nica veio do pai, que ouvia em casa de Stravinsky a Scott Joplin (ela nasceu no ano da estreia, em Paris, da “Sagração da primavera” – ou seja, sob o signo da renovação sonora). Aventura musical/aventura vivencial. Depois de se casar com o Barão Jules de Koenigswarter (1904/95) – um francês com sobrenome alemão, pai de seus filhos –, e de viver num castelo na França, com todo luxo, Nica se juntou à Resistência Francesa, na 2ª Guerra Mundial (Jules já estava no exército): lutou no norte da África, na Itália e, finalmente, em solo francês (dizem até que pilotou bombardeiros…). Segundo Hannah, a guerra operou uma mudança total em Nica: “aos 32 anos estava livre e havia vislumbrado outra maneira de viver”.

O jazz – “trilha sonora de sua vida” – levou Nica a se radicar em Nova York. Separada (inclusive dos filhos) e vivendo de rendas, “perseguiu” Monk até encontrá-lo e tornar-se sua grande amiga (alguns dizem que também amante); se enturmou com todo o grupo de jazzistas da época, frequentando os clubes noturnos, gravações e todo tipo de jazz sessions. Excêntrica, a baronesa viveu numa mansão rodeada por centenas de gatos.

Nica foi uma espécie de mecenas e “anjo da guarda” de vários músicos, como Charlie Bird Parker (barra pesada nas drogas e no álcool, como Monk e muitos outros também) que morreu no seu apartamento. “Para os que buscavam uma nova vida” – observa Hannah – “a Nova York pós-guerra era o cadinho da inovação e da criatividade, um local que concentrava imensa energia”: Nica conviveu ali com beats, expressionistas abstratos e com os então novos escritores norte-americanos Saul Bellow e Norman Mailer.

Certa vez, Nica chegou a ir para a cadeia, por porte de drogas, no lugar de Monk, “que nunca conseguia resistir a uma carreira de cocaína com uísque puro” – segundo seu amigo e músico Paul Jeffrey. A presença da “baronesa” foi tão expressiva no mundo do jazz que ela até virou personagem do conto “El perseguidor” de Cortázar, inspirado em Parker (no texto é identificada como Tica, “uma marquesa bastante esquisita”; há uma boa tradução do conto realizada pelo poeta Sebastião Uchoa Leite que saiu pela Cosac Naify em 2012).

Bonita, atraente e atrevida, Nica fez a diferença. Foi homenageada em vinte peças musicais jazzísticas – entre elas, “Pannonnica”, de Monk. Aliás, esse era o nome científico de uma borboleta. Sim, Nica foi uma borboleteante amante do jazz – vivendo nas asas do som e do sonho.

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