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Quase cego, vendo tudo

26/10/2016 07:23:48

Ferlinghetti: poeta e editor da City Lights Books.
Ferlinghetti: poeta e editor da City Lights Books.

Por Carlos Ávila

Há pouco tempo, tanto o “Estadão” quanto a “Folha de SP” deram matérias sobre o poeta beat norte-americano Lawrence Ferlinghetti. Sobrevivente de uma significativa geração literária nos States (da qual fazem parte Ginsberg, Kerouac, Gregory Corso etc.), Ferlinghetti está com 97 anos e quase cego. Mas vendo tudo – muito lúcido (a julgar pela entrevista que deu a Raphael Sassaki, na “Folha”). No momento, está preparando para publicação uma espécie de romance-memória, em que conta sua trajetória – “One Stream of Consciousness” (Um fluxo de consciência).

Autor de uns dez volumes de poemas – além de alguns de prosa, e também de peças teatrais –, Ferlinghetti ficou conhecido como o criador e editor da City Lights Books, em São Francisco. Pelo selo de sua livraria foi lançado o famoso “Howl” (“Uivo”) de Ginsberg, livro com o longo, violento e polêmico, poema-emblema da beat generation, que chegou a ser censurado nos EUA.

A força poética dos beats é inegável. Trata-se de uma poesia mal comportada, muitas vezes “suja” e, para alguns, de pouco acabamento verbal – neorromântica e com traços surrealistas. Talvez ganhe sua dimensão maior por meio da oralidade. São poetas anti-stablishment, com uma aguda visão crítica de seu país e da realidade em que viviam (anos 1950/60, período da chamada “guerra-fria”).

“Os anos 1950 foram uma época revolucionária” – afirmou Ferlinghetti, na entrevista a Sassaki. “Em São Francisco você podia fazer qualquer coisa, ainda havia uma última fronteira na América, e era um lugar excitante de se estar”.

Já editada e traduzida no Brasil (por bons poetas-tradutores como Paulo Henriques Britto e Nelson Ascher), a poesia de Ferlinghetti parece, à primeira vista, melhor elaborada do que a de Ginsberg. Talvez por ser menos excessiva e verborrágica; mais contida.

Sempre anárquico e hoje mais pessimista (“o mundo nunca esteve tão ruim”), mas ainda com as antenas ligadas, Ferlinghetti deplora a candidatura do bufão Trump, que lhe lembra Mussolini, e define o poeta como um inimigo do Estado: “Sua função é contar a verdade que é distorcida pelos políticos”.

Ferlinghetti, aos 97 (“esperando o blecaute final”), traz à lembrança o final do seu belo poema-prosa sobre o idoso Pound lendo no Festival de Spoleto (Teatro Melisso), na Itália, visão que o emocionou; a voz do velho poeta ainda ecoava quando Ferlinghetti desceu e saiu do teatro para a luz do sol:

Acima da cidade

junto do antigo aqueduto

as castanheiras

ainda vicejavam

Aves mudas

voavam bem abaixo

no vale

O sol brilhava

sobre as castanheiras

e as folhas

voltavam-se para o sol

voltavam-se e voltavam-se e voltavam-se

e continuariam voltando-se

Sua voz seguia e

prosseguia

através das folhas…

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