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Iglésias e a literatura

09/11/2016 06:00:29

O historiador Iglésias: ideias também sobre literatura.
O historiador Iglésias: ideias também sobre literatura.

Por Carlos Ávila

O historiador Francisco Iglésias (1923/1999) – um dos mais importantes do país, particularmente nos estudos relacionados à história econômica, política e social (com uns dez livros publicados) – foi também um arguto analista da literatura brasileira do séc. 20. Escreveu inúmeros artigos sobre temas literários, com observações precisas; poderia, caso desejasse e se dedicasse mais, ter se tornado crítico literário “na esteira” de um Antonio Candido, por ex. (o caso de Iglésias lembra o de Sérgio Buarque de Holanda, também historiador, que militou na imprensa como crítico de literatura).

Filho de imigrantes espanhóis, nascido em Pirapora (MG), Iglésias participou da revista “Edifício”, em BH, nos anos 1940, ao lado de Autran Dourado, Otto Lara Resende, Hélio Pelegrino, Sábato Magaldi e outros; conheceu e conviveu com Mário de Andrade – uma referência essencial para ele. Entre os temas abordados por Iglésias nos seus estudos literários estão o modernismo brasileiro, a poesia de Drummond (pela qual era apaixonado; sabia de cor vários poemas do itabirano) e a obra memorialística de Pedro Nava.

Iglésias – segundo Candido, seu amigo – tinha uma personalidade singular: “era um conferencista incomparável, um conversador cheio de humor e ironia, uma fonte de observações finas e desabusadas, revestidas pela franqueza mais livre e, se necessário, mais contundente que se possa imaginar”. Ainda jovem, tive o privilégio e o prazer de conviver e conversar com Iglésias em várias ocasiões; o “retrato” de Candido é perfeito – lembro-me bem de seu papo agradável, pontuado, realmente, por humor e ironia. Muito culto, curtia, além da literatura, as outras artes (música, cinema etc.). Seguem, abaixo, alguns toques literários de Iglésias (retirados de uma coletânea de seus ensaios organizada por João Antônio de Paula).

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Poesia e história

A poesia é mais significativa que a história, pois esta cuida do particular, enquanto aquela cuida do universal (…). Lírica ou épica, a poesia aproxima-se bem mais da verdade que o texto histórico; este, ainda em suas expressões mais altas, como em Tucídides, Maquiavel, Voltaire, Marx ou os grandes nomes do nosso século, com seu apuro de instrumental de trabalho e a sutileza das teorias interpretativas, fica um pouco aquém da apreensão do humano e do social expressos nas criações poéticas de um Homero, Virgílio, Dante, Camões, Shakespeare, Eliot, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade.

Drummond

Livre e até rebelde, fora expulso de colégio por discordar de opiniões de professores. No Colégio de Friburgo, tão bem evocado em Esquecer para lembrar (a série “Fria Friburgo”, de quarenta poemas), em “Segundo Dia”, lembra do apelido ganho logo que chega ao internato – Anarquista. De fato, os apelidos nunca são gratuitos. Carlos, menino, adolescente, adulto, sempre foi inconformado, contra os padrões convencionais – daí seu comportamento discrepante, que lhe valeu a expulsão do colégio, bem como a obra literária construída, na base da contestação, da ruptura, atestada pelos temas ou pela forma, quase sempre original, às vezes violentamente original, como criador ou inventor de novos modos de dizer.

Pedro Nava

Ele se preparou para escrever não uma vida – a sua –, nem a de sua família apenas. Se pretendeu cantar a saga dos avós cearenses vindos para Minas, de mineiros operosos, às vezes loucos ou quase, da vida aqui e no Rio de Janeiro, traçou com força de artista, de historiador e de outros cientistas sociais, a trajetória de um povo, de uma classe, de uma sociedade. Sua ampla cultura literária, imensa como a cultura médico-científica, deu-lhe a forma superior. Se teve modelos, estes foram sobretudo Proust e um pouco menos Thomas Mann, gênios universais que, através da cultura francesa ou alemã, recriaram como ninguém o homem universal.

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