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Num hotel em meio à guerra

16/11/2016 06:00:50

Hemingway e Martha Gellhorn: amor e guerra no Hotel Florida.
Hemingway e Martha Gellhorn: amor e guerra no Hotel Florida.

Por Carlos Ávila

Há exatos 80 anos as terras espanholas se tornaram um cenário de sangue e morte. 1936: tinha início a Guerra Civil Espanhola, que duraria três anos e dividiria o país entre direita e esquerda – nacionalistas e republicanos. Os primeiros de tendência fascista (apoiados por alemães e italianos); os segundos, uma frente libertária que incluía catalães e separatistas bascos – socialistas, comunistas e anarquistas (apoiados pela União Soviética).

Tudo começou com um levante militar no então Marrocos espanhol, liderado pelo General Francisco Franco (1892/1975), que depois se espalhou pela Espanha continental. Foi um conflito desigual: os franquistas contavam com armamento pesado e moderno fornecido pelos nazifascistas – além de apoio aeronáutico e de infantaria destes; os republicanos com equipamentos e estrategistas soviéticos (ajuda depois retirada) e as Brigadas Internacionais (voluntários de vários países) – mas prejudicados pelo desacordo entre as várias facções esquerdistas, pela política de não intervenção da França e da Inglaterra; e ainda por um embargo legal dos EUA à exportação de armas para a Espanha.

A Guerra Civil Espanhola é marcada por um mártir: o poeta Garcia Lorca (1898/1936), um dos mais importantes do séc. 20, assassinado pelos fascistas nas redondezas de Granada (seu corpo nunca foi encontrado); é marcada também por um símbolo visual: o quadro “Guernica” de Picasso que evoca plasticamente a destruição total da cidade de Guernica, no País Basco, pela aviação alemã (a importante obra está hoje no Museu Reina Sofia, em Madri – só retornou à Espanha após a morte de Franco, por desejo expresso de Picasso).

Essa guerra desumana e cruel é o pano de fundo de “Hotel Florida” – livro-pesquisa de Amanda Vaill, traduzido e lançado este ano pela Ed. Objetiva. São mais de 400 págs. cujo eixo central é o Hotel Florida, em Madri, onde se hospedavam os correspondentes de guerra estrangeiros. Particularmente, três casais que centralizam a narrativa de Amanda: Hemingway e a escritora/jornalista Martha Gellhorn, os fotógrafos Robert Capa e Gerda Taro, e os secretários de imprensa Arturo Barea e Ilsa Kulcsar. Amor e morte se misturam na cena tumultuada de uma Espanha em chamas.

“Ao ser inaugurado uns doze anos antes” – observa Amanda – “o Florida havia sido um hotel elegante num local chique – um porta-joias de dez andares com fachada de mármore, aquecimento central, quartos mobiliados com opulência cercando um átrio com teto de vidro, a uma esquina das lojas elegantes da Gran Via (…). Agora era um alvo para as mesmas bombas e tiros lançados contra seus vizinhos”. Também um refúgio “para um conjunto poliglota de jornalistas, pilotos franceses e russos e damas da noite oportunistas”. Ali eles tomavam porres no pequeno bar e faziam “estripulias” à noite (“gritos, portas batendo e pés correndo”).

Quando não estavam no Florida os casais-personagens e testemunhas dos horrores da guerra se movimentavam pelos fronts abertos em torno de Madri, arriscando a vida em busca de notícias – e por Valência (para onde o governo republicano se transferiu) e Barcelona, cidades que resistiram o mais que puderam ao ataque violento e devastador das tropas fascistas de Franco (este não queria saber de prisioneiros ou refugiados – fuzilava sem dó nem piedade os inimigos, inclusive mulheres e crianças!).

Hemingway (que participou do documentário-denúncia “A terra espanhola”, exibido na época por toda a Europa) e seus companheiros do Florida, derrotados como os republicanos, deixaram uma Espanha destruída e humilhada. A tensão era grande e em breve começaria um conflito de maiores proporções: a Segunda Guerra Mundial – que alguns deles ainda cobririam.

Restavam as lembranças do Hotel Florida, quando eles abriam as janelas para que o vidro não quebrasse na explosão e ouviam os discos de Chopin de Hemingway na maior altura para abafar o som do bombardeio.

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