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Clássicos

23/11/2016 06:00:56

Shakespeare e Cervantes: difíceis de ler, mas fundamentais.
Shakespeare e Cervantes: difíceis de ler, mas fundamentais.

Por Carlos Ávila

“Você será um tolo se procurar o tipo de arte de que não gosta” – observou Ezra Pound, acrescentando: “Será um tolo se ler os clássicos porque lhe disseram que o fizesse e não porque os aprecie”. Ora, os clássicos – como um Shakespeare ou um Cervantes, por ex., que completam 400 anos de morte em 2016 – estão aí para serem lidos e relidos por prazer, não por obrigação.

Um Homero, um Virgílio, um Dante; ou mesmo os clássicos “modernos”: um Proust, um Kafka, um Joyce, um Borges, um Guimarães Rosa só podem ser lidos “naturalmente” – ou seja, pela vontade do próprio leitor, interessado em ampliar sua cultura e sua visão do mundo.

Alguns argumentam que são textos difíceis, “pesados”, recolhidos em volumes alentados (e que hoje ninguém tem mais tempo para esse tipo de leitura). Sim, é isso mesmo. Mas tornar-se uma pessoa culta (e não apenas bem informada) realmente demanda tempo e trabalho. Voltemos a Pound: só leia os clássicos se verdadeiramente os aprecia.

Muitos se envergonham de não ter lido um livro famoso. Quanto a isso, ouçamos o que diz Italo Calvino (autor do ensaio “Por que ler os clássicos”): “Para tranquilizá-los, bastará observar que, por maiores que possam ser as leituras ‘de formação’ de um indivíduo, resta sempre um número enorme de obras que ele não leu”. Ou seja, sempre teremos as nossas “lacunas”, as nossas “faltas” nesse campo.

O bardo inglês Shakespeare (1564/1616) – nascido em Stratford-upon-Avon (já visitei ali sua simpática “casinha”) – e o prosador espanhol Cervantes (1547/1616), nascido em Alcalá de Henares, são leitura fundamental para os que buscam os clássicos.

Existem diversas traduções em português, tanto dos célebres sonetos de Shakespeare (por Maria do Céu Saraiva Jorge, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Ivo Barroso, Jorge Wanderley etc.), quanto de sua obra dramática – Manuel Bandeira traduziu “Macbeth”; Onestaldo de Pennafort, “Romeu e Julieta” e “Otelo”; Péricles Eugênio, “Hamlet”, “Macbeth” e “Otelo”. Há ainda uma integral de Carlos Alberto Nunes com todas as comédias, tragédias e dramas históricos. Barbara Heliodora (profunda conhecedora e estudiosa do dramaturgo inglês) e Millôr Fernandes, entre outros, também traduziram peças de Shakespeare. Um bom apoio para o conhecimento da obra shakespeariana é o “Guia Cambridge de Shakespeare” de Emma Smith (traduzido e lançado em 2014 pela L&PM Editores).

Existem algumas traduções de “Dom Quixote” para o português. Li ainda jovem uma tradução portuguesa, em três grossos volumes encadernados (não me lembro mais se foi a dos Viscondes de Castilho e Azevedo, ou a de Aquilino Ribeiro). Há, no Brasil (até onde estou informado), traduções de Almir de Andrade e Milton Amado; de Eugênio Andrade; de Sérgio Molina e de Carlos Nougué/José Luis Sánchez.  As “Novelas exemplares” de Cervantes também já estão traduzidas e lançadas por aqui.

Shakespeare & Cervantes – grandes autores que, embora contemporâneos, nunca se conheceram. Os poemas e peças do primeiro e a famosíssima novela do segundo são clássicos que merecem sempre leitura (se este for o desejo da própria pessoa – nunca uma obrigação). Pois os clássicos, segundo Calvino, são livros que “quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos”.

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