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A força da palavra

28/02/2014 12:36:07

Prosadores e poetas só existem em função da palavra, do seu poder de dizer.

Por Carlos Ávila

A palavra era adorada como uma divindade entre os antigos – ensina Tassilo Orpheu Spalding, no seu pequeno/grande “Dicionário da Mitologia Latina”. Como a comunicação humana se apoia basicamente na palavra, seja em que idioma for, ela continua a ser o principal elemento da linguagem entre nós: forma que une som e significado, expressão máxima do pensamento.

Segundo o mesmo dicionário, a “arte da palavra” supera todas as outras, é uma espécie de ápice da criação humana, o ponto mais alto em termos estéticos que podemos alcançar. Leia-se o verbete palavra naquele livrinho imprescindível para consultas e estudos relacionados à mitologia latina: “De todas as artes, a mais bela, a mais expressiva, a mais difícil, é sem dúvida a arte da palavra. De todas as mais se entretece e se compõe. São as outras como ancilas e ministras; ela soberana universal. Da estatuária toma as formas; da arquitetura imita a regrada estrutura de suas fábricas; da pintura copia a cor e o debuxo de seus quadros; da música aprende a variada sucessão de seus compassos e melodias; e sobre todos esses predicados tem, mais do que as outras artes, a vida, que anima os seus painéis, a paixão, que dá novo esplendor às suas tintas, o movimento, que intima aos que a escutam e admiram, o entusiasmo e a persuasão”.

Ora, artes da palavra são, em essência, a literatura e a poesia (estabelecendo aqui uma distinção entre essas duas, seguindo a lição do poeta e crítico norte-americano Ezra Pound, que assegurava que “poesia não é bem literatura”). Prosadores e poetas só existem em função da palavra, do seu poder de dizer, de possibilitar a expressão de ideias e sentimentos; a ficção e a fabulação. “A palavra para mim é tudo” – afirmou certa vez Drummond numa entrevista. E acrescentou: “Minha ferramenta de trabalho e o produto dessa ferramenta”.  Daí, talvez, ele tenha chegado àqueles versos reflexivos: “Lutar com palavras/é a luta mais vã/entanto lutamos/mal rompe a manhã”.

Embora vã, a luta continua. Várias batalhas foram perdidas, mas “a guerra” não. “Palavra, palavra/ (digo exasperado), /se me desafias, /aceito o combate”. Mesmo constatando hoje o desgaste e a poluição da linguagem verbal, seja pelo contínuo uso cotidiano ou por sua banalização excessiva na mídia, que levam ao clichê e à repetição automatizada, ao empobrecimento sígnico, cabe aos escritores, em geral, utilizá-la em direção contrária, buscando não uma inatingível pureza da palavra, mas um sentido e um lugar outros para ela.

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