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No ritmo de Cortázar

28/08/2014 21:54:47

 

O centenário de nascimento de Cortázar (1914/1984).
Centenário de nascimento de Cortázar (1914/1984).

O centenário de nascimento de Cortázar (1914/1984), o grande escritor argentino que se radicou em Paris, está sendo festejado, merecidamente, mundo afora; no Brasil, no último fim de semana, os principais jornais dedicaram muitas páginas a ele. Mas pouco (ou nada) se falou da relação intrínseca do autor de “O Jogo da Amarelinha” com a música – a melodia e a dramaticidade das letras de tango que ele, como Borges, curtia muito; e, principalmente, o ritmo, o swing e a improvisação do jazz, todo um universo musical que o escritor descobriu ainda adolescente, ouvindo rádio em Buenos Aires.

Cortázar evoca o grande mito Carlos Gardel, num de seus textos: “o Gardel das pickups elétricas coincide com a sua glória, com o cinema, com uma fama que lhe exigiu renúncias e traições. É em tempos anteriores, nos pátios à hora do mate, nas noites de verão, nos rudimentares aparelhos de rádio a galena, ou nas primeiras lamparinas, que ele está em sua verdade, cantando os tangos que o definem e o fixam nas memórias”. O tango trazia de volta a Cortázar lembranças e imagens de sua casa e de sua família.

Já o jazz influenciou o homem mais maduro, o Cortázar escritor que afirmou num livro de entrevistas ao jornalista uruguaio Omar Prego: “Acho que o elemento fundamental ao qual sempre obedeci é o ritmo”. Ora, o ritmo está na base do desenvolvimento do jazz, da música popular negra nascida e criada nos Estados Unidos. E na escrita o ritmo também é importante, está na construção das frases, no encadeamento dos vocábulos, no continuum verbal e nas pausas. Uma espécie de “poética do ritmo”, influenciada pelo jazz, está presente todo o tempo na escritura criativa de Cortázar, às vezes de maneira muito evidente como na bela “Prosa do Observatório”.

“O que me preocupa é a noção do ritmo” – observou também Cortázar a Prego. E acrescentou: “Acho que uma escrita que não tenha uma noção de ritmo baseada na construção sintática, na pontuação e no desenvolvimento do período, que se converte simplesmente na prosa que transmite a informação com grandes choques internos, sem chegar à cacofonia, carece do que eu procuro nos meus contos. Carece dessa espécie de swing, para empregar um termo de jazz”.

Há, sim, swing jazzístico nos textos de Cortázar; ênfase no ritmo da escrita e até alguma “improvisação”. Enfim, um pulso e um impulso musicais que envolvem o leitor e o convidam a um jogo, ou seja, a uma leitura lúdica e interativa.

Afora os elementos específicos da linguagem do jazz que Cortázar introduziu verbalmente na sua ficção – nos seus contos e romances –, ele também escreveu diretamente sobre os criadores dessa música como, por exemplo, Louis Armstrong (“enormíssimo cronópio”). “Do pistão de Louis a música sai como as fitas faladas das bocas dos santos primitivos, no ar se desenha sua quente escritura amarela…”.

 

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