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O boêmio Lupicínio

05/09/2014 06:00:07

Lupicínio Rodrigues, o criador da dor-de-cotovelo.
Lupicínio Rodrigues, o criador da dor-de-cotovelo.

Por Carlos Ávila

“E assim esta bola achatada/ que chamam de mundo/prossegue a rodar/e o amor continua um mistério/que nem a ciência/consegue explicar”. Versos de Lupicínio Rodrigues (1914/1974). Um compositor que a ciência também não consegue explicar: não tocava um único instrumento! Criava suas canções “batucando na caixinha de fósforo” (às vezes, com a ajuda de algum parceiro que dedilhava o violão, como Alcides Gonçalves ou Felisberto Martins).

Há cem anos o poeta-cantor da dor-de-cotovelo, boêmio incorrigível, nascia em Porto Alegre; de família pobre e numerosa, desde menino Lupicínio gostava apenas de cantarolar, nada de “pegar no pesado”. Em plena adolescência já era amigo do samba e do copo, da madrugada e das paixões: “Quem há de dizer/que quem você está vendo/naquela mesa bebendo/é o meu querido amor/repare bem que toda vez que ela fala/ ilumina mais a sala/do que a luz do refletor…”.

Lupicínio é um compositor único na música popular brasileira; ninguém se parece com ele (com seu pathos, sua poética melodramática e desconcertante, sua “verdade/pura, nua e crua”). No âmbito da chamada velha-guarda ele se distingue de autores como Noel Rosa, Ary Barroso ou Caymmi, pela peculiaridade de sua linguagem que, às vezes, chega a uma franqueza verbal que beira o patético: “já não chegam essas mágoas tão minhas/a chorar nossa separação/ainda vêm essas aves daninhas/beliscando o meu coração”. O maior herdeiro musical de Lupicínio era o santista Lúcio Cardim (1932/1982), muito pouco conhecido e divulgado.

Curioso é que Lupi (como era chamado desde criança e pelos amigos) cantava sua verdade – seus lancinantes casos e acasos amorosos – com voz baixa e mansa, seguindo a lição do grande Mário Reis, mais adiante assimilada também por João Gilberto. Com alcance vocal limitado, entre o canto e a fala, mas carregado de emoção, ele talvez seja o melhor intérprete de suas próprias canções (basta reouvir seu LP “Roteiro de um boêmio”, salvo engano nosso, jamais lançado em CD). Jamelão, que dedicou um disco inteiro ao compositor de “Nervos de aço” (infelizmente com arranjos grandiloquentes e descaracterizadores), cantava num registro oposto, com sua voz de trovão, de puxador de samba da Mangueira. Grandes intérpretes gravaram as canções de Lupi, entre eles, Orlando Silva e Francisco Alves.

Um dos maiores admiradores de Lupicínio e grande responsável pela sua revisão e recuperação é o poeta-tradutor e ensaísta Augusto de Campos. Desde 1967, ele vem chamando a atenção para o compositor gaúcho. Segundo Augusto, “Lupicínio se dedicou, por toda a vida, a virar pelo avesso o sentimento de frustração do amor traído ou desprezado”. Fez isso lançando mão de clichês e frases-feitas, mas sem rebuscar suas letras.

Lupicínio foi bem interpretado e gravado por Gal Costa (“Volta”), Paulinho da Viola (“Nervos de Aço”) e Caetano (“Felicidade”). Jards Macalé também registrou em disco algumas composições de Lupi, entre elas, a incrível “Torre de Babel” ; de maneira inusitada, Arnaldo Antunes criou uma versão-punk de “Judiaria” e, mais recentemente, Arrigo Barnabé fez uma releitura “brutalista” de uma série de canções do gaúcho. No seu centenário deveriam, no mínimo, relançar o seu “Roteiro de um boêmio” – trata-se de um verdadeiro clássico da dor-de-cotovelo.

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