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Franceses em tradução

10/09/2014 06:00:08

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Mallarmé, o inovador da poesia francesa.

Por Carlos Ávila

Se a poesia brasileira vive atualmente um período de baixa criatividade (faltam ideias novas!), as áreas do ensaio (principalmente em âmbito acadêmico) e da tradução, ao contrário, vão muito bem. Evoluíram bastante desde o final dos anos 1960 até os dias atuais.

A tradução, particularmente, é sempre um trabalho importante para a literatura de qualquer país: permite, muitas vezes, o contato com autores de línguas que não dominamos, ou mesmo que desconhecemos completamente (as “mortas”, por exemplo, ou ainda as orientais). Hoje, contamos com inúmeros tradutores competentes prestando um bom serviço à nossa literatura.

Recentemente, no campo da poesia, surgiram no Brasil diversas traduções de autores franceses. Língua que teve forte penetração e influência por aqui, na primeira metade do século passado, o francês perdeu, gradativamente, espaço para o inglês (e também para o espanhol). Mas é fundamental para o entendimento da poesia moderna, isso se levarmos em conta as obras de Baudelaire, de Rimbaud e de Lautréamont, e o marco decisivo que foi a publicação, em 1897, do inovador “Un coup de dés” (“Um lance de dados”), o famoso poema de Mallarmé.

A boa leva de traduções de poetas franceses inclui “Os Cantos de Maldoror”, de Lautréamont, por Claudio Willer (pela Ed. Iluminuras); “Fragmentos do Narciso e outros poemas”, de Paul Valéry, por Júlio Castañon Guimarães; “Cinquenta poemas”, de Gérard de Nerval, por Mauro Gama; e, finalmente, “Um Lance de Dados”, de Mallarmé, retraduzido por Álvaro Faleiros (todos esses pela Ateliê Editorial).

Lautréamont (1846/1870) é um autor fundamental para a modernidade, tão importante quanto Rimbaud. Escreveu longos “cantos” em prosa e é um surrealista avant la lettre; morreu precocemente e quase desconhecido em Paris. Na visão de Octavio Paz, “o astro negro de Lautréamont preside o destino de nossos maiores poetas”. Já Gerárd de Nerval (1808/1855) é um precursor do simbolismo; um artesão do verso, das formas verbais “vagas” e musicais. Segundo Manuel Bandeira, “uma personalidade doentia que terminou pela loucura e pelo suicídio”.

Os dois lançamentos mais importantes nessa leva de franceses traduzidos são, seguramente, o “relance de dados” de Mallarmé, por Faleiros (a primeira e pioneira tradução de Haroldo de Campos é de 1974) e a coletânea com poemas de Valéry, por Castañon. Sim, Mallarmé (1842/1898), o sofisticado poeta do salão da Rue de Rome, em Paris – amigo de artistas impressionistas (seu retrato foi pintado por Manet); Valéry (1871/1945), o poeta-pensador por excelência, o incansável escritor dos Cahiers.

O poema de Mallarmé abriu caminho para as experiências das vanguardas – lançando mão de caracteres tipográficos diferenciados e do uso expressivo do espaço em branco da página. Valéry criou uma arquitetura própria do verso, rigorosa e cerebral – o poema para ele era “uma festa do intelecto”. Trata-se de dois autores difíceis, que exigem leitura atenta. As traduções de Faleiros e Castañon (acompanhadas por esclarecedores ensaios e notas) se complementam; ajudam-nos a penetrar num território poético complexo – a um só tempo denso e tenso.

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