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Glauber na terra do sol

12/09/2014 06:00:20

'Deus e o Diabo na Terra do Sol': obra-prima de Glauber Rocha.
‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’: obra-prima de Glauber Rocha.

Por Carlos Ávila

“Mais fortes são os poderes do povo!” – grita o bravo cangaceiro caindo morto, depois de girar alucinadamente. Corisco lutou até o fim, até o filme de Glauber terminar na tela, com a bela tomada da fuga desesperada pelo sertão até a beira-mar. “O sertão vai virar mar/e o mar vai virar sertão…”. E a cantiga nordestina de Sérgio Ricardo vai sendo “engolida” pela grandiloquência sonora de Villa-Lobos. Alegoria e poesia.

Há 50 anos estreava nos cinemas o hoje clássico “Deus e o Diabo na terra do sol”, de Glauber Rocha (1939/1981), filme de linguagem crua e cruel, aguda e áspera como a de “Os Sertões” de Euclides da Cunha (aliás, um autor referencial para o diretor baiano). O filme foi rodado em meio à crise política de 1963/64, que culminou com o golpe militar; surgiu neste clima e foi um marco na filmografia nacional (e mesmo internacional).

“Deus e o Diabo” confirmou a criatividade e a força poética de Glauber, esboçadas no curta “O pátio”, de 59 (uma espécie de composição cinematográfica construtivista, via imagem e montagem), e no seu primeiro longa-metragem, “Barravento”, de 62, com belas tomadas numa aldeia de pescadores e enredo voltado para os conflitos e as contradições humanas locais.

“É, em nossa opinião, o maior filme brasileiro já feito até hoje” – pontuou o crítico José Lino Grünewald, na época do lançamento de “Deus e o Diabo”. Assinalando que Glauber “não é discursivo, nem demagógico”, Grünewald reconhece que sua linguagem é delirante, mas lúcida: “Alguns dos papéis são de porte shakespeariano. Antônio das Mortes, com sua metafísica do mal, seu destino infalível. Corisco, com sua ética vingadora, sua ética suicida. E o beato Sebastião comandando o desvario místico, a poesia redentora das massas”.

“Deus e o Diabo” pode integrar, seguramente, uma lista dos dez maiores filmes já realizados no país, ao lado, por exemplo, de “Limite”, de Mário Peixoto, um ou dois filmes do mineiro Humberto Mauro e ainda “Vidas Secas” de Nelson Pereira dos Santos. Enquanto o sertão não virar mar, e persistir a paisagem seca e injusta do nosso nordeste, o filme de Glauber continuará vivo e atual (assim como o de Nelson Pereira).

O cinema de Glauber, como o de Godard, é inquieto e provocativo; tem o poder de questionar (e mesmo de mudar!) valores com suas imagens contundentes. Lembre-se aqui também do desconcertante e algo barroco “Terra em Transe” (uma das fontes do tropicalismo de Caetano & Gil, e da montagem teatral do “Rei da Vela”, por José Celso); ou ainda do desmistificador e atrevido “Di” (sobre a morte de Di Cavalcanti). Dois outros grandes momentos do diretor de “Deus e o Diabo” – filme que, por sua importância, merece ser revisto (e repensado) agora que completa 50 anos.

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