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O Murilo experimental

24/09/2014 06:00:27

Murilo Mendes: obra reeditada pela Cosac Naify.
Murilo Mendes: obra reeditada pela Cosac Naify.

Por Carlos Ávila

“O menino experimental futuro inquisidor devora o livro e soletra o serrote”. O verbo vertiginoso do mineiro Murilo Mendes (1901/1975) volta à cena: todos os seus livros estão sendo reeditados pela Ed. Cosac Naify. Bem-vinda reedição de uma obra importante, destacada no último fim de semana, muito merecidamente, por todos os cadernos de cultura da mídia impressa. Salve Murilo! – juiz-forano universal, poeta cosmopolita que passou pelo Rio e se radicou em Roma, levando nossa poesia para o mundo.

A reedição da obra completa do poeta tem o apoio da Universidade Federal de Juiz de Fora e do Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM); coordenam a edição dois especialistas na obra muriliana: Júlio Castañon Guimarães (poeta, tradutor e pesquisador) e Murilo Marcondes de Moura (ensaísta e professor da USP) – ambos competentes estudiosos com livros publicados sobre o poeta. Castañon é autor de “Territórios/Conjunções – poesia e prosa críticas de Murilo Mendes” (de 1993); Moura de “Murilo Mendes – a poesia como totalidade” (de 1995). Estes dois volumes, juntamente com o livro pioneiro de Laís Corrêa de Araújo, “Murilo Mendes” (de 1972), formam o tripé teórico básico para o entendimento da obra do poeta. Há pouco tempo, mais um trabalho importante se juntou a esses, o estudo da professora Maria Betânia Amoroso, “Murilo Mendes – o poeta brasileiro de Roma”, focando a sua “fase italiana”. Mas a bibliografia muriliana continua a crescer (graças aos céus!).

O fato de Murilo ter deixado o país, no final da década de 1950, fez com que seu nome e sua obra ficassem um tanto esquecidos por aqui. Murilo e sua mulher, a também poeta e tradutora Maria da Saudade, moraram anos a fio num belo apartamento/estúdio na Via Del Consulato, em Roma, rodeados por livros, quadros e gravuras de artistas plásticos famosos como Guignard, Ismael Nery (que foi grande amigo de MM), De Chirico, Max Ernest e Miró. Cultíssimo, o poeta era professor de cultura brasileira na Universidade de Roma, além de grande conhecedor de música erudita (adorava Mozart) e crítico de artes-plásticas – escreveu inúmeros textos de apresentação para exposições de artistas italianos.

João Cabral de Melo Neto: “a poesia de Murilo sempre me foi mestra, pela plasticidade e novidade da imagem”; Haroldo de Campos: “o poema de modo muriliano típico é uma espécie de gerador interativo de sintagmas, que se escandem completos e acabados, uns após os outros, articulados por uma combinatória capaz de abrigar a concórdia na discordância”.

Anárquico, irônico, barroco-surreal na sua primeira fase; sintético e construtivo (“soldei concreto e abstrato”) na fase final, Murilo fez poesia pelo avesso, aproximou opostos e explorou dissonâncias com o seu verso desconcertante.

“Esquadrinho nas palavras/meu espaço e meu tempo justapostos/e dobro-me ao fascínio dos fatos/que investem a página branca” – assim Murilo define sua poética; o Murilo experimental, eterno investigador, que desmonta a lírica e subverte a sintaxe.

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