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A música sempre nova de Gilberto

26/09/2014 06:00:40

Gilberto Mendes: criador do Festival Música Nova.
Gilberto Mendes: criador do Festival Música Nova.

Todos conhecem Caetano, Gil, Milton, Chico e Roberto Carlos. Nossa música popular é conhecida e respeitada mundialmente. Mas quem conhece Gilberto Mendes? Com mais de 90 anos, ele é um dos mais importantes compositores da “música impopular brasileira”, ou seja, da chamada música erudita (clássica ou “de concerto”, se preferirem) no país. Faz parte de uma geração que renovou a música por aqui, a partir das ideias trazidas da Europa pelo professor e compositor Koellreutter (1915/2005). Integrou um grupo do qual faziam parte, entre outros, Rogério Duprat, Júlio Medaglia e Willy Corrêa de Oliveira. Este grupo lançou, em 1963, nas páginas da revista “Invenção” (porta-voz da vanguarda poética brasileira da época), o famoso e hoje histórico “Manifesto da música nova”.

Agitador cultural, ainda hoje Gilberto está ativo, realizando a 48º edição do Festival Música Nova – aberto no último dia 24, em Ribeirão Preto, e que deve durar até 4 de outubro, incluindo também as cidades de Santos e de São Paulo. É incrível a longevidade desse evento, criado por Gilberto nos anos 1960, para divulgar a produção musical contemporânea por meio de concertos, com a presença de músicos e compositores não só nacionais, mas também estrangeiros.

Gilberto tem músicas gravadas e executadas em todo o mundo (viajou muito por conta disso; recebeu prêmios e homenagens). “Motet em ré menor: Beba Coca Cola”, sobre um poema de Décio Pignatari, é sua composição mais conhecida. Trata-se de uma peça coral divertida e crítica, uma espécie de antipropaganda, incluindo efeitos microtonais, falados e expirados nas vozes (até um arroto!), com um final cênico: os cantores abrem uma faixa onde se lê “cloaca”, enquanto gritam essa palavra (a última do poema) três vezes, como se estivessem num comício ou passeata.

Nada ortodoxo, Gilberto curte (e até cita nas suas composições) também a música popular – trilhas de cinema (Nino Rota, por exemplo) e, especialmente, a música norte-americana: o jazz, branco ou negro, de Duke Ellington e Benny Goodman, e as canções dos filmes de Hollywood e dos musicais da Broadway (Gershwin, Cole Porter e Irving Berlin).

Infelizmente, pouca gente sabe da existência de Gilberto. Nascido em 1922, na cidade de Santos, litoral paulista – onde sempre morou e pela qual tem um carinho especial – ele continua ativo, criando suas composições, mantendo contato com as novas gerações de músicos, escrevendo, pensando e participando da vida cultural. Fato admirável para quem atingiu a sua idade!

Há mais tempo, Gilberto foi tema de um belo documentário, já em DVD: “A Odisseia Musical de Gilberto Mendes” – dirigido por seu filho Carlos Mendes; publicou também dois livros sobre sua trajetória: “Uma odisseia musical” e “Viver a sua música” (ambos editados pela Edusp). Em meio a tanta violência e corrupção, Gilberto Mendes nos redime. Faz parte do Brasil que dá certo, o musical.

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