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Sambistas e chorões

05/11/2014 06:00:18

Pixinguinha, um gênio da MPB segundo Lúcio Rangel.
Pixinguinha, um gênio da MPB segundo Lúcio Rangel.

Por Carlos Ávila

Ele foi um dos primeiros a escrever sobre jazz no Brasil; um crítico e estudioso pioneiro (os outros dois foram o milionário e bon vivant Jorge Guinle e o “poetinha” Vinicius de Moraes). Mas entendia mesmo, como ninguém, era de música popular brasileira; no jazz, embora fosse profundo conhecedor, tinha suas idiossincrasias: só admitia músico negro e abominava o bebop! Estamos falando do musicólogo carioca Lúcio Rangel (1914/1979), cujo centenário de nascimento comemora-se neste ano.

Como merecida homenagem, o Instituto Moreira Salles (IMS) reeditou o único livro que Rangel publicou em vida, o fundamental “Sambistas e chorões”, lançado em 1962 pela Ed. Francisco Alves. Ótima iniciativa! Mas poder percorrer as páginas da primeira edição, hoje raridade bibliográfica, é um privilégio. Afora o texto claro e atraente de Rangel, o volume traz também ilustrações de Alberto Teixeira e preciosas fotos do arquivo do autor.

Na verdade, o livro de Rangel, segundo o próprio numa nota introdutória, é uma compilação de artigos, entrevistas e reportagens saídas na imprensa do Rio e de São Paulo, porém “readaptados e atualizados”. Trata-se de uma descontraída aula de música popular, sem chatices ou pedantismos intelectuais, dos seus primórdios até “a volta de Mário Reis”, segundo Rangel, “o grande acontecimento artístico de 1960”. O estudioso aborda no seu livro a literatura de cordel; a crítica musical de Mário de Andrade; as “primeiras chapas de gramofone” etc. – além de falar de figuras importantes como Pixinguinha e Noel Rosa.

Rangel destaca o sucesso do jovem Pixinguinha na flauta, em Paris, na casa noturna Sheherazade, em 1922, integrando o grupo Os oito batutas (cuja foto evoca uma autêntica jazz band): “Harold de Bozzi, primeiro prêmio de flauta do Conservatório de Paris, fica embasbacado com o Pixinguinha”.  O músico era o ídolo máximo de Rangel, como instrumentista (na flauta e no sax), compositor de sambas e choros, orquestrador e chefe de orquestra: “Pixinguinha revela-se admirável, o que nos leva a afirmar, com toda a serenidade, estarmos frente ao maior músico popular que já tivemos em todas as épocas, mesmo considerando a grandeza de um Ernesto Nazaré, de um Sinhô ou de um Noel Rosa”.

Segundo o jornalista Sérgio Augusto, que conheceu pessoalmente Rangel (e organizou um ótimo livro com artigos dele: “Samba, jazz & outras notas”), o boêmio além de entender de jazz, samba, choro, literatura (era apaixonado pelos franceses, incluindo Proust), existencialismo e whisky, era também cinéfilo (adorava os Irmãos Marx).

Sérgio ainda observa que “não procede a reputação de que só era engraçado de cara cheia”. Certa vez em jejum total, quando um amigo sugeriu que beliscassem algo para forrar o estômago, Rangel respondeu de pronto: “Você tem razão. Mas primeiro vamos beber alguma coisa, porque eu não como de estômago vazio”.

Vale a pena ler (ou reler) este delicioso “Sambistas e chorões”, onde Rangel revela, ao final, o “orgulho de ter inventado” a dupla mais gravada do Brasil. Sim, ele apresentou Tom Jobim a Vinicius de Moraes. É preciso dizer mais?

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