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Versos, brilhos

07/11/2014 06:00:19

Versos de Drummond se tornaram expressões populares.
Versos de Drummond se tornaram expressões populares.

Por Carlos Ávila

“Avec une seule caresse/je te fais brîller de tout son éclat” (Com uma só carícia/ te faço brilhar em todo o seu esplendor) – estes bonitos versos do poeta francês Paul Éluard (1895/1952) fazem pensar nos versos que ficam na nossa memória, que volta e meia ecoam no nosso pensamento. Versos que perduram através do tempo e nos acompanham. Um ou dois versos são sempre mais fáceis de lembrar, ou de memorizar, do que todo o texto de um poema, vários versos (ou linhas) que compõem e estruturam um poema, mesmo relativamente curto.

Todos nós temos nossos versos preferidos. Manuel Bandeira destacava sempre que o mais belo verso da língua portuguesa para ele era de uma canção popular: “Tu pisavas nos astros distraída”. Trata-se de um verso do letrista Orestes Barbosa, da conhecidíssima “Chão de Estrelas” – música e gravação de Sílvio Caldas. Versos de canções populares (poesia para ser cantada, à maneira dos antigos trovadores provençais?), não só de poemas, marcaram e marcam a todos. Aliás, versos de canções populares são mais fáceis ainda de se memorizar, pelo acoplamento da palavra ao som – a uma linha melódica tonal e reconhecível pelas pessoas.

Muitos têm seus versos preferidos nas canções de Noel, Lupicínio, Jobim e Vinicius, Caetano, Chico ou ainda Roberto Carlos. Alguns exemplos que nos ocorrem neste momento: “Quando eu morrer não quero choro nem vela/ quero uma fita amarela gravada com o nome dela” (Noel); “Não consigo dormir sem seu braço/ pois meu corpo está acostumado” (Lupicínio); “E cada verso meu será pra te dizer/ que eu sei que vou te amar por toda minha vida” (Jobim e Vinicius); “Meu coração vagabundo/quer guardar o mundo/ em mim” (Caetano); “Tem dias que a gente se sente/como quem partiu ou morreu” (Chico); “Detalhes tão pequenos de nós dois/são coisas muito grandes pra esquecer” (Roberto).

Alguns versos de Drummond incorporaram-se à língua portuguesa (ou seria melhor dizer, brasileira?), tornando-se verdadeiras expressões populares: “E agora, José?”; “Vai, Carlos! ser gauche na vida”; “tinha uma pedra no meio do caminho”; “Mundo mundo vasto mundo,/se eu me chamasse Raimundo/seria uma rima, não seria uma solução”; “Êta vida besta/meu Deus” etc. Versos de Vinicius também: “que seja infinito enquanto dure”; “Filhos… filhos?/melhor não tê-los!/mas se não os temos/como sabê-los?”.

Certos versos não se tornaram expressões populares, como já foi dito, mas são bastante conhecidos e sempre lembrados; por exemplo: “Belo belo belo,/tenho tudo quanto quero”, de Manuel Bandeira; ou ainda: “Não sou alegre nem sou triste:/sou poeta” de Cecília Meireles. Uma quadrinha de Mário Quintana também caiu no gosto do povo: “Todos esses que aí estão/atravancando meu caminho,/eles passarão…/eu passarinho!”.

Um verso pode funcionar como uma espécie de talismã para nós, um objeto verbal portátil que vem à memória e aos lábios, unindo o pensamento ao sentimento, num momento especial. Versos podem iluminar a nossa vida com seu potencial de expressão. Às vezes, somente através deles conseguimos traduzir o nosso interior. Versos são brilhos, conseguem quase o impossível; revelar (e registrar) com belas palavras, por exemplo, a carícia que fez brilhar o corpo da mulher amada.

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