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A sempre viva Pagu

14/11/2014 06:00:05

Pagu: musa e militante do ideal.
Pagu: musa e militante do ideal.

Por Carlos Ávila

É muito bem-vinda a reedição, revista e ampliada, de “Pagu: vida-obra”, com organização, seleção de textos, notas e roteiro biográfico de Augusto de Campos (pela Companhia das Letras); a primeira edição saiu em 1982. O poeta, tradutor e ensaísta foi responsável pelas “re-visões” do maranhense Sousândrade (1833/1902) – um poeta que vai muito além do romantismo; moderníssimo e radical no “Inferno de Wall Street”, com sua técnica de montagem pré-poundiana – e do baiano Pedro Kilkerry (1885/1917), refinado simbolista que também foi mais adiante do seu tempo, configurando-se quase um modernista (leia-se, por exemplo, a prosa criativa e instigante de suas “Cotidianas-Kodaks”). O livro sobre Pagu é também uma espécie de re-visão da obra dispersa e fragmentária da escritora e jornalista, musa dos modernistas de 22.

Patrícia Galvão (1910/1962) nasceu em São João da Boa Vista (SP); conhecida como Pagu (o apelido foi criado pelo poeta Raul Bopp), teve uma vida agitada, cheia de altos e baixos, incluindo três fases: a primeira como poeta/desenhista, participante do movimento antropofágico, ligada a Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade (com quem se casaria e teria um filho: Rudá), que correu mundo chegando até a China; a segunda, como aguerrida militante política (ingressou no Partidão em 1931, opção pela qual sofreu o diabo, incluindo prisões pelos getulistas e pressões dos stalinistas); a terceira e última fase assinala seu rompimento com o partido comunista e o reinício de sua atividade criativa, como jornalista e agitadora cultural (afora o casamento com Geraldo Ferraz que lhe daria outro filho: Geraldo).

Pagu foi uma figura combativa e inquieta; ousada na aparência (roupas, cabelo etc.) e na postura feminista e independente. Fez poesia “desenhada” (ligando verbal e visual) no período modernista, escreveu dois romances (“Parque Industrial” e “A famosa revista”, este em parceria com Ferraz); enfrentou o fascismo e a esquerda stalinista (“jdanovista” também, que colocava limites na arte); traduziu e introduziu autores de vanguarda, então desconhecidos no país, como o francês Antonin Artaud; participou de polêmicas e debates variados, criticando, por exemplo, a “traição” e o mea-culpa de Mário de Andrade em relação ao modernismo, no final da década de 40, e o manifesto reacionário e nacionalóide do compositor Guarnieri, que se insurgiu contra os avanços da linguagem musical (a técnica dodecafônica de composiçãode Schoenberg, introduzida no Brasil por Koellreutter).

A vida de Pagu confunde-se com a sua obra (daí o nome acertado do volume de Augusto). Seus desenhescritos, romances, crônicas e críticas ficaram espalhados por aí, talvez em função de uma existência conturbada (incluindo até tentativa de suicídio!). Mas Pagu sempre se manteve coerente defendendo a liberdade de pensamento e as experiências inovadoras na literatura e nas artes.

Em “Pagu: vida-obra”, Augusto junta com sensibilidade todos os “cacos”, monta o quebra-cabeça e restitui a imagem de uma mulher única e íntegra, uma verdadeira “militante do ideal” (como a definiu Geraldo Ferraz). Dessa forma, Pagu – como Sousândrade e Kilkerry antes – renasce das cinzas do esquecimento para as novas gerações num livro imprescindível.

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