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Torquato

19/11/2014 06:00:50

Torquato: o vampiro lírico da Tropicália.
Torquato: o vampiro lírico da Tropicália.

Por Carlos Ávila

Ele completaria 70 anos em 2014 se estivesse vivo, mas tinha pressa. Em 10 de novembro de 1972, abriu o gás e se mandou, com apenas 28 anos. Desespero de fio a pavio. E o pavio era curto. Deu em curto-circuito. O anjo torto, muito louco, o vampiro lírico da Tropicália se esvaiu na luz da manhã como o Nosferatu expressionista de Murnau. Torquato Neto (1944/1972) se matou de madrugada, num apartamento no Rio, onde morava com a mulher Ana e o filho Tiago, depois de comemorar seu aniversário com amigos num bar.

Poeta; letrista de música (com parcerias famosas e “clássicas” com Edu Lobo, Gil, Caetano, Macalé e outros; são dele, por exemplo, as letras das canções “Pra dizer adeus”, “Geleia Geral”, “Mamãe Coragem” e “Let’s play that”); vampiro em filmes undergrounds, em superoito, de Ivan Cardoso; editor, com Waly Salomão, da revista “Navilouca”; crítico de MPB e de cinema; jornalista da “Última Hora”, onde manteve a coluna “Geleia Geral” (nela acompanhava e divulgava todo o movimento da contracultura, do “desbunde” e da resistência cultural sob a ditadura).

Torquato deixou tudo estilhaçado, fragmentado como ele próprio – depressivo, suicida e radical esteticamente (também adepto do desregramento rimbaudiano, se ligou no álcool e nas drogas). Entre tudo que criou, se realizou mais nas letras de canções, criativas e bem acabadas. No restante – poemas e esboços de escritos de todo tipo; alguma prosa; trabalhos visuais; os textos jornalísticos rápidos, sintéticos e improvisados; as investidas no cinema e a militância crítica etc. – ressalta o inacabado, a pressa e a pressão psicológica, a urgência de viver e o “sonho desesperado”.

Curiosamente, é toda essa fragmentação caótica (textual e visual) que atrai no seu legado, reunido postumamente em livros como “Os últimos dias de paupéria”, coordenado por Waly Salomão, ou “Torquatália” – dois volumes organizados por Paulo Roberto Pires. Algo na sua escrita anunciava e antecipava a linguagem entrecortada e antilinear da internet, onde tudo (texto, imagem, som etc.) se cola e se descola, se corta e se recorta, se compõe e se decompõe rapidamente. Daí a atração que exerce a produção de Torquato sobre os jovens, sobre todos que encontram ali muito do que hoje se identifica como multimídia, como performático e conceitual.

Afora isso, a postura anticonvencional e certa mitificação (e mesmo fetiche) relacionada à imagem do poeta-suicida (como ocorreu também com Maiakóvski) alimentam o interesse pelo “personagem” Torquato – piauiense que se soltou para o mundo (via Salvador, Rio, São Paulo, Europa e novamente Rio, onde morreria). Em vida, o poeta se ligou aos amigos baianos da música popular e a artistas plásticos como Lygia Clark e Hélio Oiticica; aos poetas concretos (Irmãos Campos e Pignatari) e a cineastas marginais como Bressane e Sganzerla; sua biografia foi escrita pelo jornalista Toninho Vaz (Ed. Nossa Cultura, 2013).

Torquato, figura algo genial e atormentada, que escreveu com sabedoria: “um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela”.

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