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Zapeando por Barthes

21/11/2014 06:00:39

Barthes (1915/1980): texto voluptuoso e sedutor.
Barthes (1915/1980): texto voluptuoso e sedutor.

Por Carlos Ávila

À leitura linear, página após página, alguns preferem a leitura “saltada”, que vai e vem por entre as folhas (isso se dá, principalmente, no caso de livros de poemas, ensaios e até mesmo biografias; quanto à ficção, com um enredo ou narrativa sequenciada, a coisa fica mais difícil – a não ser que estejamos diante de uma prosa criativa, onde as palavras mais cantam do que contam, tipo “Galáxias” de Haroldo de Campos, uma viagem textual, quase onírica ou delirante, atritando o escrito e o vivido).

Um livro de Barthes (sim, o grande escritor/pensador francês, autor de volumes fundamentais como, por exemplo, “O Grau Zero da Escritura” e “O Prazer do Texto”) que incita ou sugere esse tipo de leitura é “Roland Barthes por Roland Barthes”, já traduzido no Brasil, há bastante tempo, pela competente Leyla Perrone-Moisés. Montado pelo próprio autor, o livro se inicia com “biografemas” e imagens familiares do mesmo, seguidos por inúmeros fragmentos (ou minitextos), com muitas autocitações de livros, prefácios, colaborações e artigos.

O leitor pode viajar por essas páginas à vontade, indo e vindo, saltando de um tópico ou assunto para outro completamente diverso, numa espécie de “jogo da amarelinha” (para lembrar aqui o conhecido e genial “Rayuela” de Cortázar cuja proposta é essa mesma do “salto”, de uma leitura não linear, lúdica e provocante).

Barthes – que reconhecia que tinha “uma doença”, pois via a linguagem – é um desses estilistas ou sintaxiers cujo texto voluptuoso e sedutor é fruto de uma escrita algo tortuosa ou enviesada, esgarçando aqui e ali o sentido (talvez isso seja enfatizado pela própria natureza estrutural da língua e da gramática francesas). Enfim, o mundo verbal de Barthes encanta e fascina ao mesmo tempo.

Zapeando com prazer por essas páginas de Barthes por ele mesmo o leitor se depara com observações e digressões sobre os mais diversos temas, mas sempre entendidos como partes de um universo de signos (verbais e icônicos) nos quais estamos todos imersos. E como ele é espantosamente atual e profundo! Vejam este trecho: “Vivo numa sociedade de emissores (sendo eu mesmo um deles): cada pessoa que eu encontro ou que me escreve, me manda um livro, um texto, um balanço, um prospecto, um protesto, um convite para um espetáculo, para uma exposição etc.”

Barthes observa que “o gozo de escrever, de produzir, assalta de todos os lados” e conclui dizendo que isso produziria “uma espécie de ejaculação coletiva da escritura, na qual se poderia ver a cena utópica de uma sociedade livre (onde o gozo circularia sem passar pelo dinheiro)”, mas que virou hoje “um apocalipse”.

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