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Os poetas escrevem para crianças

26/11/2014 06:00:20

Sophia conta a história da menina do mar.
Sophia conta a história da menina do mar.

Por Carlos Ávila

“Aprendi com meu filho de dez anos/que a poesia é a descoberta/das coisas que eu nunca vi” – escreveu Oswald de Andrade, em poema curtíssimo do seu livro “Pau Brasil”, editado em 1925. Aprende-se muito com as crianças. Os poetas, particularmente, costumam manter sempre viva (e presente) uma espécie de percepção infantil. Muitos deles evidenciam isso ao escrever versos ou histórias para crianças, cultivando assim um mundo de fantasia e sonho, algo surreal.

Dois lançamentos recentes apresentam atraentes e criativas prosas poéticas escritas para crianças, acompanhadas por belas ilustrações: “A menina do mar”, da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919/2004), e “Contos”, do poeta norte-americano e. e. cummings (1894/1962) – ele grafava seu nome sempre em letras minúsculas. O livro de Sophia traz ilustrações de Veridiana Scarpelli; o de cummings de Eloar Guazzelli (a tradução é de Claudio Alves Marcondes). As edições, primorosas (principalmente a do livro de cummings), são da Cosac Naify.

Sophia – poeta de inspiração marítima – conta a história do encontro, na praia, de um garoto com a delicada e pequenina “menina do mar”, sempre acompanhada pelos seus três amigos: o polvo, o caranguejo e o peixe. Maravilhado com a sua descoberta, o garoto fica amigo da menininha e de seus acompanhantes; volta no dia seguinte e leva uma “flor da terra” para ela. A partir daí, passam a brincar juntos e a trocar impressões e conhecimentos sobre a terra e o mar; e muitas coisas fantásticas acontecem – com o amor e a saudade perpassando todas elas.

O texto de Sophia tem a mesma fineza vocabular e semântica de sua poesia: “As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas”. Na edição foi mantido o português de Portugal, por isso ao final do livro há um pequeno glossário com o significado de algumas expressões (por ex. fazer o pino = ficar de ponta-cabeça).

O inovador cummings – poeta que faz acrobacias com as letras e palavras no papel (ou, segundo McLuhan, “engraçadas caretas tipográficas para a audiência”) – teve uma filha, Nancy, à qual dedicou três dos contos publicados no seu livro: “O velho que só perguntava por quê?”, “A casa que comeu torta de mosquito” e “A menininha chamada eu”; o sensível “O elefante e a borboleta” foi escrito para o seu neto. Pelos títulos, o leitor pode imaginar o que vai encontrar nos contos. O velhinho, bem velhinho, do primeiro conto, por exemplo, vai ficando mais moço, menino, bebê e… nasce!

As divertidas invencionices de cummings nesses textos correspondem, no plano do conteúdo, às que ele pratica com a forma nos seus poemas, repletos daquela percepção infantil que só os poetas conservam através do tempo. Como se cummings estivesse descobrindo, oswaldianamente, as coisas que nunca viu.

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