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O Gráfico Amador

03/12/2014 06:00:14

Gráfico Amador: bom gosto e excelência gráfica.
Gráfico Amador: bom gosto e excelência gráfica.

Por Carlos Ávila

Entre 1954 e 1961, o Gráfico Amador editou 26 livros, três volantes, um programa de teatro e outros impressos menores (cartões de Natal e de casamento; convites para exposições). A pioneira gráfica e editora do Recife – uma das mais importantes do país, em termos artesanais – reuniu em seu grupo, entre outros, os designers Aloísio Magalhães (1927/1982) e Gastão de Holanda (1919/1997) – este também professor e escritor; o poeta, tradutor e editor José Laurenio de Melo (1927/2006); e o estudioso e teórico das artes gráficas Orlando da Costa Ferreira (1915/1975).

A história do grupo e da editora foi resgatada pelo carioca Guilherme Cunha Lima, designer e professor universitário, num belo álbum, amplamente ilustrado, lançado este ano pela Ed. Verso Brasil: “O Gráfico Amador – as origens da moderna tipografia brasileira”. Trata-se de um excelente (e profundo!) trabalho de pesquisa, que não só cobre toda a atividade do Gráfico Amador, mas também situa a evolução do grafismo contemporâneo (desde a Semana de Arte Moderna até o movimento concretista, nos anos 1950) e historia o desenvolvimento da imprensa no país – do seu nascimento até o início da gráfica-editora recifense.

Cunha Lima destaca três mestres que abriram caminho, em Pernambuco, para a rica experiência do Gráfico Amador: o sociólogo Gilberto Freyre; o pintor e poeta Vicente do Rego Monteiro e o poeta João Cabral de Melo Neto. Todos eles, cada qual à sua maneira, desenvolveram atividades ligadas ao campo gráfico formando um ambiente favorável à renovação e à criatividade de Aloísio e de seus companheiros (o Gráfico funcionava no seu ateliê, na Rua Amélia, 415, em Recife).

Freyre foi editor de jornais e livros, mas não foi tipógrafo; segundo Cunha Lima, “sua contribuição se limitou estritamente ao cuidado com a edição comercial, especialmente com o uso da ilustração e com a qualidade gráfica do texto”. Já Rego Monteiro criou caligramas e poemas visuais, e manteve a Editora Renovação, nos anos 40, com tipografia criativa e experimental; em Paris, onde viveu grande parte de sua vida, montou uma oficina chamada La Presse à Bras. Entre as suas edições destacam-se o pioneiro “Concrétion” (de 1952, ou seja, quatro anos antes do lançamento oficial do concretismo!) e “Cartomancie” – o artista plástico Paulo Bruscky reeditou em fac-simíle o primeiro, e recriou o segundo em formato de baralho.   Cabral compôs e imprimiu, numa prensa manual, em Barcelona, obras suas e de outros autores espanhóis e brasileiros; sua oficina se chamava O Livro Inconsútil (por não serem costurados os livros ali impressos).

As edições do Gráfico Amador tinham pequena tiragem e também pequeno formato, em geral. “A encadernação dos livros” – observa Cunha Lima – “era bastante simples. Capas eram coladas sobre costura simples. Muitas vezes, os cadernos ficavam soltos dentro da capa. Em alguns casos, foram usados grampos na lombada. Em um dos livros, Ciclo, de Carlos Drummond de Andrade, empregou-se a técnica da encadernação chinesa: folhas do miolo coladas cuidadosamente pelas bordas, formando uma sanfona contínua que se encaixava pelos dois lados na capa”. Além de Drummond, outros autores importantes também foram editados, como João Cabral, Vinicius de Morais e Ariano Suassuna.

Trazendo reproduções de diversas edições do Gráfico Amador, o livro de Cunha Lima é uma contribuição inestimável para a história da editoração no Brasil – juntando-se ao volume “Editores artesanais brasileiros”, de Gisela Creni, lançado no ano passado pela Ed. Autêntica.

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